Ao acusar Alexandre de Moraes de “interferir nas eleições”, Flávio Bolsonaro reproduz a mesma estrutura discursiva que Jair Bolsonaro usou contra as urnas e o STF entre 2021 e 2022 — antes de recusar-se a reconhecer a derrota e ser condenado por tentativa de golpe. Veja a cronologia.
Na semana passada, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou como “tentativa de interferir nas eleições deste ano” a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de suspender por 90 dias suas visitas ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A frase, dita em live no YouTube, não é um episódio isolado: é a mais recente aplicação de uma fórmula discursiva que a família Bolsonaro já usou antes — com desfecho conhecido. Esta matéria reconstrói, com data e fonte, a cronologia dessas declarações contra o sistema eleitoral e o Judiciário, para mostrar o que se repete e o que, até agora, é diferente.
O gatilho de julho de 2026
Em 11 de julho, Flávio divulgou nas redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro declarando apoio à pré-candidatura do filho à Presidência. Para Moraes, a divulgação, feita por quem visita o ex-presidente sob medidas cautelares, poderia configurar descumprimento dessas restrições — e também propaganda eleitoral antecipada, motivo pelo qual o caso foi remetido ao Ministério Público Eleitoral. Moraes então suspendeu as visitas de Flávio ao pai por 90 dias, prazo que só se encerra depois do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Em resposta, Flávio classificou a medida como “algo totalmente desproporcional”, chamou a justificativa de Moraes de “fake” e disse que o objetivo seria deixar o pai “incomunicável” até a votação — concluindo que isso “claramente configura essa tentativa de Alexandre de Moraes de interferir nas eleições deste ano”.
2021: a régua contra as urnas e o STF
O uso de acusações contra o sistema eleitoral como resposta a decisões judiciais desfavoráveis não é novo na família. Em 7 de setembro de 2021, na Avenida Paulista, Jair Bolsonaro declarou que só deixaria o poder “preso, morto ou com vitória” e desafiou: “Eu nunca serei preso”. No mesmo discurso, atacou o então presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso — “por que o presidente do TSE quer manter dúvidas nas eleições?” — e chamou Alexandre de Moraes de “canalha”, exigindo que o ministro “se enquadre ou renuncie”. Passado o momento de tensão institucional, o próprio Bolsonaro amenizou o tom dias depois, atribuindo as falas ao “calor do momento”.
Julho de 2022: a reunião com embaixadores
Menos de um ano depois, em 18 de julho de 2022, Bolsonaro reuniu cerca de cem embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada para uma apresentação de slides questionando a segurança das urnas eletrônicas e a integridade da Justiça Eleitoral — sem apresentar provas. O episódio se tornaria, um ano depois, o fundamento jurídico da sua inelegibilidade: em 30 de junho de 2023, por 5 votos a 2, o plenário do TSE declarou Bolsonaro inelegível por 8 anos (até 2030), por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Prevaleceu o voto do relator, ministro Benedito Gonçalves; ficaram vencidos os ministros Raul Araújo e Kassio Nunes Marques.
Outubro de 2022 a janeiro de 2023: o silêncio e o 8 de janeiro
Derrotado no segundo turno por Lula, por margem de cerca de 2,1 milhões de votos, Bolsonaro ficou praticamente em silêncio por quase dois dias antes de qualquer manifestação pública — e, mesmo então, não chegou a reconhecer explicitamente o resultado. Nas semanas seguintes, apoiadores organizaram acampamentos em frente a quartéis pedindo intervenção militar; em 12 de dezembro, houve ataques a prédios públicos em Brasília; e em 8 de janeiro de 2023, uma multidão invadiu e depredou as sedes dos três Poderes na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
2025: a condenação
Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF, por 4 votos a 1, condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma organização criminosa que planejou um golpe de Estado para permanecer no poder após a derrota nas urnas em 2022. Entre as provas citadas pela Corte estavam anotações da agenda do general Augusto Heleno sobre o planejamento prévio de um “discurso contra as urnas eletrônicas”, a minuta de um decreto de ruptura institucional e o financiamento de acampamentos golpistas. Heleno, o ex-ministro Anderson Torres, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier e o ex-ministro Walter Braga Netto também foram condenados.
O que se repete — e o que ainda não
O padrão estrutural é o mesmo: antes de um desfecho que pode ser desfavorável — uma eleição, uma decisão judicial —, a família Bolsonaro qualifica publicamente o árbitro (o TSE em 2021-2022, o STF e Moraes em 2026) como parcial ou hostil, preparando o terreno para que qualquer resultado adverso seja lido pela base como fruto de perseguição, não de derrota legítima. É a mesma lógica que, segundo analistas ouvidos pela imprensa, sustenta a base bolsonarista desde então: “os bolsonaristas já usam qualquer coisa da Justiça como perseguição”, resume o cientista político Paulo Roberto de Souza.
Há, porém, uma diferença que precisa ser registrada com honestidade: até a data de publicação desta matéria, Flávio Bolsonaro não repetiu, em nenhuma declaração encontrada nesta apuração, a acusação específica de fraude nas urnas ou o anúncio de que só aceitaria um resultado eleitoral favorável — o discurso de julho de 2026 se concentra na alegação de perseguição judicial contra o pai, não numa contestação antecipada do voto. A comparação, portanto, é sobre a ferramenta retórica — deslegitimar o árbitro antes do apito final —, não sobre uma acusação de que o filho já tenha ido tão longe quanto o pai foi. Falta saber se o restante da campanha confirma ou desmente o paralelo.
Com informações de ND+, Jornal de Brasília, Gazeta Brasil, CNN Brasil, TSE, STF, Brasil de Fato e O Povo.