O Tabuleiro Geopolítico: Por que Trump vê a eleição brasileira como seu “próximo grande teste”
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou em sua rede Truth Social um artigo do site conservador Newsmax que classifica a eleição presidencial brasileira de 2026 como o “próximo grande teste” da direita na América Latina. O que parece, à primeira vista, um simples endosso ideológico a candidatos conservadores na região revela, na verdade, um movimento mais profundo e preocupante: uma tentativa explícita de interferência no processo eleitoral brasileiro, alimentada por interesses geopolíticos que vão muito além da política doméstica.
O que está em jogo não é apenas a orientação política do próximo governo brasileiro, mas o papel do Brasil no tabuleiro geopolítico global — especialmente diante de iniciativas como a desdolarização do comércio internacional, a ampliação de mercados para além dos Estados Unidos e a crescente influência do país no BRICS e em outros foros multilaterais.
O Artigo da Newsmax: O Que Diz e Por Que Trump o Compartilhou
Escrito pelo colunista John Gizzi, o artigo publicado pelo Newsmax — um veículo alinhado ao trumpismo — sustenta que uma sequência de vitórias de candidatos conservadores na América Latina ampliou a influência de Trump no continente. O texto cita as recentes eleições na Colômbia, com a vitória do ultradireitista Abelardo de la Espriella, e no Peru, com a confirmação de Keiko Fujimori, como os capítulos mais recentes de uma mudança política na região.
Ao mencionar o Brasil, o artigo afirma que a eleição presidencial será “o próximo grande teste” da região e que o país ocupa posição estratégica no cenário político latino-americano. Em um dos trechos destacados por Trump, o texto afirma que “a eleição já está gerando intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e se a disputa será conduzida de maneira considerada livre e justa por todos os lados”. A publicação também sustenta que, caso o Brasil passe a integrar o grupo de países governados pela direita, “o mapa político da América Latina será dramaticamente diferente do que era há apenas uma década”. Na conclusão, o autor afirma que “Trump está realmente tornando as Américas grandes novamente”.
O compartilhamento ocorreu uma semana depois de uma troca pública de declarações entre Trump e o presidente Lula durante a cúpula do G7, na França, quando o republicano afirmou que o Brasil havia se tornado um país “politicamente perigoso”.
A Motivação Oculta: Desdolarização, Ampliação de Mercados e a Guerra Comercial
Por trás do interesse de Trump na eleição brasileira está uma motivação que vai muito além da ideologia: a defesa da hegemonia do dólar e do domínio econômico dos Estados Unidos.
A Desdolarização como Ameaça Existencial
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, o governo americano tem visto com crescente preocupação os movimentos do Brasil e de outros países do BRICS em direção à desdolarização do comércio internacional. O presidente Lula tem defendido publicamente a criação de uma moeda própria para o bloco, uma proposta que Trump já classificou como uma ameaça direta aos interesses americanos.
A equipe econômica de Trump, segundo reportagens, chegou a discutir penalidades contra aliados ou adversários que procurem formas de reduzir a dependência do dólar. O governo americano impôs um total de 50% em tarifas para o Brasil como resposta aos desenvolvimentos da agenda de desdolarização.
A Ampliação de Mercados como Afronta
A política tarifária e de relações externas de Trump tornou-se um ingrediente adicional ao avanço estratégico dos chineses e de outros asiáticos em busca de novos mercados, contribuindo para que a importação brasileira ficasse ainda mais concentrada nesses países. Sob ameaça de Trump, Brasil e Ásia estreitaram laços comerciais.
O governo brasileiro, diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos, passou a ampliar seus mercados para outras regiões, buscando reduzir a dependência do mercado americano. Essa diversificação — que inclui aproximação com a China, com a União Europeia e com outros parceiros do BRICS — é vista por Trump como uma afronta direta aos interesses econômicos dos Estados Unidos.
As Evidências da Interferência: Um Padrão que se Repete
O governo Lula avalia que os Estados Unidos iniciaram um movimento explícito para interferir nas eleições brasileiras. Pelo menos seis episódios recentes reforçam essa percepção:
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O encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump na Casa Branca — uma reunião de 1h40 que o senador classificou como recebida com “enorme cordialidade”.
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A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, anunciada após o pedido feito por Flávio Bolsonaro. Auxiliares de Lula avaliam que a decisão teve caráter político e teria sido tomada para ajudar a campanha de Flávio.
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A indicação do deputado republicano Daniel Perez como embaixador americano no Brasil.
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A proposta de aplicação de uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras.
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A publicação por Trump, em sua rede social, de fotos do encontro com Flávio Bolsonaro com elogios ao senador no mesmo dia do anúncio da proposta de tarifaço.
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A declaração do secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que o Brasil não é aliado dos Estados Unidos.
O cientista político Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard, resume o novo modus operandi: “Neste momento, o governo Trump adota uma postura de buscar de alguma forma influenciar todas as eleições que ele acompanha”. E complementa: “Na América Latina, o que se vê é que algum tipo de opinião ou de tentativa de influenciar virou regra”.
O Caso Banco Master: A Conexão que Expõe o Tabuleiro
O escândalo do Banco Master adiciona uma camada extra de complexidade a esse tabuleiro. O senador Flávio Bolsonaro, que vinha enfrentando desgaste após a revelação de que pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, conseguiu um encontro com Trump e tentou mudar o foco do debate.
A viagem a Washington foi considerada um sucesso por seus assessores, mas Flávio não obteve o apoio formal de Trump à sua candidatura. O senador negou ter pedido apoio: “Não tem declaração de nada de apoio. Como não deveria ter, como não poderia ter e como eu jamais pediria que isso acontecesse”.
No entanto, o timing é revelador: a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas — uma medida defendida por Flávio em sua reunião com Trump — ocorreu dias após o encontro, e o governo Lula avalia que a decisão teve como objetivo “ajudar a candidatura do senador”.
O Paradoxo: A Interferência que Pode Sair pela Culatra
Interlocutores do presidente Lula avaliam que há um risco concreto de o “tiro sair pela culatra”. Isso porque existe forte rejeição no Brasil ao presidente americano Donald Trump, que cada vez mais passa a ser associado ao senador Flávio Bolsonaro.
Uma pesquisa Datafolha divulgada em junho de 2026 mostra que 65% dos eleitores consideram indiferente se o presidente Trump apoiar um candidato ou outro — o que sugere que o endosso de Trump pode não ter o efeito desejado e, em alguns segmentos, pode até prejudicar o candidato apoiado.
A cientista política Tathiana Chicarino, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, observa que Lula tem marcado posições firmes a respeito das tentativas de influência de Trump, e isso pode favorecer o petista.
Conclusão: O Brasil no Centro de uma Disputa Geopolítica
O compartilhamento do artigo do Newsmax por Trump não é um gesto isolado de simpatia ideológica. É a ponta de um iceberg que revela uma estratégia mais ampla do governo americano para influenciar o resultado das eleições brasileiras, motivada por interesses econômicos e geopolíticos claros.
O Brasil, sob o governo Lula, tem buscado ampliar seus mercados internacionais e reduzir sua dependência do dólar — movimentos que Trump interpreta como uma afronta direta à hegemonia americana. A resposta do republicano tem sido uma combinação de pressão tarifária, interferência política explícita e alinhamento com candidatos da oposição.
A pergunta que fica é: até onde Trump está disposto a ir para evitar que o Brasil se torne um polo de resistência à hegemonia americana? E, mais importante, o eleitor brasileiro — que rejeita majoritariamente a interferência externa — perceberá o movimento e reagirá de forma a preservar a soberania do país, ou permitirá que o tabuleiro geopolítico seja jogado por interesses estrangeiros?
O que está em jogo em outubro de 2026 não é apenas a escolha do próximo presidente do Brasil. É a definição do papel do país no mundo — se como um ator soberano e multilateral, ou como um peão no tabuleiro geopolítico de Trump.
Esta matéria foi construída com base em informações da ND Mais, da BBC News Brasil, da Agência Pública, da CartaCapital, do G1, do Valor Econômico e do Brasil de Fato.