1. O Cenário: uma ameaça anunciada e uma corrida contra o tempo

A. O El Niño é uma certeza, não uma surpresa

Em maio de 2026, o governador de Santa Catarina já havia decretado estado de alerta climático por 180 dias. A Defesa Civil estadual e a Epagri/Ciram, em conjunto com a NOAA (agência norte-americana), já projetavam uma probabilidade de 90% de formação do El Niño no inverno de 2026. A previsão é de um fenômeno de intensidade forte a muito forte entre a primavera e o verão de 2026/27, com impactos diretos em Santa Catarina: chuvas acima da média, aumento de alagamentos, inundações e deslizamentos.

Em outras palavras: desde maio — e, em alguns aspectos, desde o final de 2025 — o poder público já sabia que o El Niño viria, com alto grau de certeza e com potencial destrutivo.

B. A reunião de 22 de junho: o retrato da reatividade

A reunião da Bancada ocorreu em 22 de junho de 2026. O prazo para novos repasses era 4 de julho. Ou seja, restavam menos de duas semanas para destravar recursos, realizar processos licitatórios e executar obras preventivas.

Os prefeitos relataram demora na análise de projetos pela Defesa Civil Estadual, com casos como o de Águas Mornas, que aguardava resposta desde fevereiro. A prefeita de Paulo Lopes afirmou que o tempo é “insuficiente” para os municípios receberem os recursos e realizarem os processos licitatórios.

C. A burocracia como obstáculo — e a tentativa de soluções paliativas

Diante do cenário, os gestores propuseram:

  • Simplificação de procedimentos, como o licenciamento ambiental para obras de desassoreamento.

  • Que a própria Defesa Civil execute os serviços nos municípios que não conseguirem concluir as licitações a tempo.

  • A criação de um fundo específico para atender às demandas dos municípios.

  • Estudos para mudanças na legislação que permitam repasses da Defesa Civil durante períodos eleitorais.

  • Uma comissão permanente para acompanhar o tema.

Todas essas são medidas corretas e necessárias, mas são, em sua essência, paliativas. Elas tratam dos sintomas — o prazo curto, a burocracia, a falta de recursos —, mas não atacam a raiz do problema.


2. A Raiz do Problema: da Reatividade à Proatividade

A notícia revela um ciclo vicioso que se repete em todo o Brasil:

  1. O problema (enchente, estiagem, crise) é anunciado com antecedência.

  2. O poder público aguarda até que o problema se aproxime.

  3. Instala-se o pânico e a corrida contra o tempo.

  4. Medidas emergenciais são tomadas, muitas vezes ineficazes ou tardias.

  5. A população sofre as consequências.

  6. Reinicia-se o ciclo.

O que falta? Gestores públicos que compreendam profundamente os problemas que enfrentamos e que atuem de forma ativa e planejada, em vez de reativa.

A. Planejamento de longo prazo, não apenas ciclos eleitorais

O calendário eleitoral não é uma surpresa. As eleições de 2026 estão previstas na Constituição, e seus prazos são conhecidos por todos os gestores há anos. Da mesma forma, o El Niño não é uma novidade — o Brasil já sofreu grandes enchentes em 1983 e 2023 provocadas por ele.

Se o El Niño é esperado para o segundo semestre de 2026, por que as obras de prevenção só começam a ser discutidas em junho? Por que os projetos ambientais estão parados na Defesa Civil desde fevereiro?

A resposta é a ausência de planejamento estratégico. A gestão pública muitas vezes opera no horizonte do mandato, não no horizonte dos problemas. A criação de uma comissão permanente proposta na reunião é um passo na direção certa, mas sua eficácia dependerá de que ela atue de forma contínua, e não apenas quando a crise se aproxima.

B. Gestão de riscos como política de Estado, não como política de governo

A proposta de destinar 0,5% do orçamento do Estado para um fundo permanente da Defesa Civil é uma excelente iniciativa. Isso transformaria a prevenção em uma política de Estado, com recursos garantidos independentemente do governo ou do ciclo eleitoral.

Mas isso ainda é uma proposta — e, mesmo que aprovada, levará tempo para ser implementada. Enquanto isso, o El Niño está aí.

C. Desburocratização e eficiência: uma agenda permanente

A reclamação sobre a demora na análise de projetos pela Defesa Civil não é nova. A burocracia é um problema crônico na administração pública brasileira. A simplificação de procedimentos, como o licenciamento ambiental para obras de desassoreamento, é uma medida necessária, mas que deveria ser permanente, não uma exceção para emergências.

A pergunta que fica é: por que a desburocratização só é discutida quando o prazo está acabando? Por que não é uma agenda permanente de melhoria da gestão pública?


3. O Ponto de Vista: a urgência de uma nova cultura de gestão

A notícia, embora mostre gestores preocupados e mobilizados, revela uma cultura de gestão que ainda é predominantemente reativa. E essa cultura tem um custo altíssimo: em vidas, em recursos públicos mal gastos e em oportunidades perdidas.

A. O gestor público como planejador, não como bombeiro

O gestor público não pode ser apenas um “bombeiro” que apaga incêndios. Ele precisa ser um planejador que antecipa os incêndios e constrói sistemas de prevenção. Isso exige:

  • Conhecimento técnico para compreender os problemas (climáticos, econômicos, sociais) com profundidade.

  • Visão de longo prazo para planejar além do mandato e do ciclo eleitoral.

  • Capacidade de articulação para construir soluções que envolvam diferentes níveis de governo e a sociedade.

  • Coragem política para tomar decisões impopulares no curto prazo em benefício do longo prazo.

B. A prevenção como investimento, não como custo

A obra de drenagem, o desassoreamento do rio, a contenção de encostas — tudo isso custa dinheiro. Mas custa muito menos do que a reconstrução após uma enchente. A prevenção é um investimento com alto retorno social e econômico. O problema é que seus benefícios não são imediatamente visíveis, e muitas vezes não se materializam dentro do mandato do gestor que a realizou.

É preciso mudar essa lógica. A população precisa cobrar, e o gestor precisa entregar, não apenas obras visíveis, mas políticas públicas estruturantes que reduzam a vulnerabilidade das cidades e das pessoas.

C. O ciclo eleitoral como oportunidade, não como desculpa

O calendário eleitoral é frequentemente usado como desculpa para a inação. Mas ele também pode ser uma oportunidade. O gestor que se antecipa, que planeja e que executa antes do período eleitoral, demonstra competência e compromisso com a população — e isso, sim, é um trunfo político legítimo.

O problema não é o calendário eleitoral; é a cultura de deixar para a última hora. Se os projetos tivessem sido iniciados em janeiro, não haveria corrida contra o tempo em junho.


4. Conclusão: o futuro exige proatividade

Santa Catarina já sofreu com enchentes devastadoras em 1983, 2008, 2023 e 2024. O El Niño é um fenômeno conhecido, previsível e que trará impactos severos ao estado nos próximos meses.

O cenário que a notícia descreve — uma reunião de última hora, prefeitos desesperados por recursos, um prazo eleitoral que se aproxima — é o retrato de uma gestão pública que ainda não aprendeu com o passado. É o retrato de uma cultura que ainda é mais reativa do que proativa.

Não podemos mais aceitar isso.

Precisamos de gestores públicos que:

  • Compreendam os problemas com profundidade, baseados em dados e ciência.

  • Planejem com antecedência, com horizontes que vão além do mandato.

  • Desburocratizem permanentemente, não apenas em emergências.

  • Invistam em prevenção, tratando-a como prioridade, não como custo.

  • Atuem de forma coordenada entre União, Estados e Municípios.

A reunião da Bancada da Grande Florianópolis é um sinal de que há mobilização. Mas mobilização não pode ser sinônimo de correria. É preciso transformar essa energia em planejamento estrutural.

O El Niño de 2026/27 já é uma realidade. A pergunta que fica é: da próxima vez que uma crise climática se anunciar, estaremos novamente correndo contra o tempo? Ou teremos finalmente aprendido a lição?

A resposta depende de nós — e da nossa capacidade de cobrar, eleger e formar gestores públicos que sejam, acima de tudo, proativos.