ARTIGO · OPINIÃO
Ao trocar obra por sobrenome, o campo que deveria ser oposição vem entregando ao presidente o melhor comitê de reeleição que o dinheiro não compra.
Há uma ironia que atravessa a corrida de 2026 e quase ninguém diz em voz alta: os nomes que a direita coloca na mesa são, hoje, o principal ativo eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva. Não por conspiração — por escolha própria.
Para enxergar isso, é preciso primeiro largar uma régua ruim. Não se trata de diploma. O Brasil já provou, com o próprio Lula — ensino fundamental, três eleições vencidas —, que canudo não governa. Medir candidato por faculdade é elitismo disfarçado de análise, e injusto com quem veio de baixo. A régua honesta é outra, e é pública: o que a pessoa fez com o cargo que teve.
E aqui os números constrangem. Em 27 anos como deputado federal, Jair Bolsonaro aprovou 2 projetos de lei — em cerca de 170 apresentados. O herdeiro ungido para 2026, o senador Flávio Bolsonaro, tem um único projeto aprovado em sete anos de Congresso. Nenhum dos dois jamais geriu um orçamento executivo antes de mirar o Planalto. Isso não é xingamento — é o registro oficial.
Compare com o padrão que a oposição ao PT costumava oferecer:
| Nome | Maior cargo de gestão | Leis aprovadas | Situação na Justiça |
|---|---|---|---|
| FHC | Ministro da Fazenda (Plano Real) → Presidente | — (perfil de Estado) | Sem condenação |
| José Serra | Ministro (Planejamento e Saúde), governador de SP | — | Sem condenação |
| Geraldo Alckmin | Governador de SP (4 mandatos) | — | Sem condenação transitada |
| Jair Bolsonaro | Nenhum antes da Presidência | 2 em 27 anos | Inelegível até 2030 (TSE) |
| Flávio Bolsonaro | Nenhum | 1 em 7 anos | Rachadinha: provas anuladas por foro e caso arquivado |
| Lula (contraponto) | Presidente (2 mandatos) | — | Condenações anuladas pelo STF (2021) |
O contraste salta: a direita anti-PT já foi encarnada por administradores de peso — gente que domou hiperinflação, que geriu o maior estado do país. Em 2026, a família aposta num nome sem obra executiva, com produção legislativa quase nula e passivo judicial, escolhido pelo único critério que sobrou: lealdade ao clã. O pai “ungiu” o filho, e o partido bateu continência.
O mercado eleitoral já precificou o erro. A rejeição a Flávio subiu e se concentra entre mulheres; a crise pública com Michelle Bolsonaro transformou fofoca de bastidor em crise de imagem; e aliados — aliados dele — sussurram que, “se continuar candidato, será destruído até outubro”. A leitura corrente é que Flávio nem quer mesmo o topo da chapa: joga por vice, ou por anistia ao pai como moeda de troca.
E o mais revelador: existe, no mesmo campo, um quadro competitivo e pessoalmente limpo — Tarcísio de Freitas, que ostenta a menor rejeição entre os presidenciáveis. Mas ele é empurrado para o canto justamente por não ser da família. Seus problemas são de alinhamento e gestão — a articulação pela anistia do 8 de janeiro, os ataques ao STF, um escândalo bilionário de ICMS que estourou na sua Secretaria da Fazenda (a Operação Ícaro, na qual, registre-se, ele não é acusado) —, não de corrupção pessoal. A direita tem, portanto, outro nome. E o descarta por deslealdade dinástica.
Enquanto isso, essa mesma bancada — PL e Novo à frente — vota contra o fim da escala 6×1, defendendo jornadas de até 52 horas. É o retrato completo: um campo que não consegue oferecer nem um nome preparado, nem uma pauta que sirva a quem trabalha.
Não é preciso torcer para Lula para concluir o óbvio. Uma oposição forte é boa para a democracia — obriga o governo a entregar. O que temos é o contrário: um campo que, ao preferir sobrenome a substância, fragmenta-se, eleva a própria rejeição e transforma cada aparição de seus candidatos em propaganda involuntária do adversário.
O melhor palanque de Lula, em 2026, não está montado no Planalto. Está sendo erguido, tijolo por tijolo, pela própria direita.
Por Djalmo Manfredi Medeiros — Big News SC
Artigo de opinião. As afirmações factuais baseiam-se em registros públicos (Câmara dos Deputados, Senado, TSE, STF) e na imprensa. Os processos citados encontram-se arquivados ou anulados, e assim são descritos. Produtividade legislativa: Bolsonaro (2 em 27 anos); Flávio (1 em 7 anos). Cenário eleitoral: CNN Brasil, Fundação Perseu Abramo. Escala 6×1: Brasil de Fato. Imagem: Congresso Nacional / Senado Federal (CC BY 2.0).