O alerta da IFI e a situação fiscal brasileira

O Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF 113) da Instituição Fiscal Independente (IFI), divulgado em 25 de junho de 2026, trouxe projeções que merecem atenção. Segundo o documento, a dívida bruta do governo federal — hoje em 80,1% do PIB, ou 80,4% segundo o Banco Central — pode alcançar 115% do PIB até 2036, caso as atuais diretrizes orçamentárias sejam mantidas. A dívida superaria a marca de 100% do PIB em 2032.

Para estabilizar esse patamar, o Brasil precisaria gerar um superávit primário de 2,1% do PIB ao ano — algo que, segundo a própria IFI, não é factível antes de 2029. O FMI projeta números ainda mais elevados: 96,5% do PIB ao final de 2026, chegando a 106,5% em 2031.

A raiz do problema está na estrutura dos gastos obrigatórios: cerca de metade das despesas da União é indexada ao salário mínimo, que voltou a receber reajustes reais a partir de 2023. O próximo presidente eleito em outubro de 2026 herdará um cenário que exigirá escolhas políticas difíceis envolvendo aposentadorias, benefícios assistenciais e remuneração do funcionalismo público.


O Brasil no ranking global: uma perspectiva necessária

Gráfico 1 — Ranking atual (2026): mostra claramente que o Brasil, com 80,4%, está bem abaixo de Japão, EUA, França, Itália e Reino Unido. O Brasil em vermelho facilita a leitura comparativa.

Antes de qualquer conclusão, é fundamental contextualizar a posição do Brasil no cenário internacional. Com uma dívida bruta de 80,4% do PIB, o país está longe de ocupar os primeiros lugares entre os mais endividados do mundo.

Japão (207,4%), Cingapura (161,6%), Estados Unidos (120,9%), Grécia (117,3%) e Itália (117,2%) lideram esse ranking. França, Canadá e Reino Unido também superam ou estão próximos da marca dos 100%. Nenhum desses países é tratado como insolvente ou sofre restrições comerciais em função de seu endividamento.

A distinção relevante não é o patamar da dívida, mas o custo de carregá-la. Países desenvolvidos financiam suas dívidas com taxas reais próximas de zero — em alguns casos, negativas. O Brasil, com juros reais em torno de 9,6% ao ano (Selic de 14,25% descontada a inflação de 4,5%), destina uma fatia crescente do orçamento ao serviço da dívida, comprimindo o espaço para investimentos.


Comparativo com as grandes potências

Gráfico 2 — Trajetórias 2026–2036: A curva do Brasil sobe enquanto as dos países desenvolvidos se estabilizam — isso é o que justifica a preocupação, não o nível atual.

A projeção brasileira aponta uma aceleração de 34,6 pontos percentuais em uma década. O problema não é o nível atual — é a inclinação da curva.


Por que países mais endividados não estão “quebrados”?

Gráfico 3 — Juros reais: O Brasil tem 9,6% de juro real enquanto Japão, França e Alemanha operam com taxas próximas de zero ou negativas. Essa diferença é o núcleo do problema .

A resposta está em três fatores que o Brasil ainda não consolidou: credibilidade institucional, moeda forte e custo de financiamento baixo. EUA, Japão e França emitem dívida em suas próprias moedas, com demanda global por seus títulos e taxas reais mínimas. Isso permite rolar dívidas elevadas indefinidamente sem pressão sobre o orçamento.

O Brasil combina uma trajetória ascendente de endividamento com os juros reais mais altos do mundo. Não é a dívida isolada que cria o risco — é essa combinação. Como afirmou o diretor da IFI, Alexandre Andrade: a despesa cresce em ritmo que o aumento das receitas não consegue acompanhar.

O debate sobre a sustentabilidade fiscal brasileira não é sobre o passado — é sobre as escolhas que precisarão ser feitas nos próximos anos.

📚 Fontes Consultadas

Instituição Fiscal Independente (IFI)

  • Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF 113) – projeção da dívida bruta em 115% do PIB até 2036.

Banco Central do Brasil (BCB)

Fundo Monetário Internacional (FMI)

World Economics

  • Ranking dos países com maior dívida pública em relação ao PIB (2026) – dados compilados para 196 países.

Trading Economics

Poder360

  • Dívida pública atinge R$ 8,8 trilhões em abril de 2026 – reportagem sobre o endividamento federal.

  • Dívida bruta sobe a 80,4% do PIB em abril – análise do indicador DBGG.

Valor Econômico / Globo

Estadao

  • Dívida bruta do governo atinge 80,4% do PIB em abril – reportagem com dados do Banco Central.