Cinquenta dias depois da promessa de Flávio Bolsonaro, o que o público recebeu sobre os milhões do filme “Dark Horse” foi uma perícia privada, sem nota fiscal, entregue em gabinete — e uma campanha que parou de andar.

No dia 19 de maio, pressionado pelos áudios em que aparece cobrando do banqueiro Daniel Vorcaro as parcelas atrasadas do filme sobre seu pai, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro fez uma promessa pública: em até 30 dias, a produtora do “Dark Horse” apresentaria uma prestação de contas “de forma transparente”. O prazo venceu em 19 de junho. Estamos em julho, e o que existe até aqui não é transparência — é uma encenação dela.

O que a Go Up Entertainment apresentou foi uma perícia privada, encomendada por ela mesma, afirmando que o filme custou R$ 75,1 milhões — R$ 54 milhões gastos nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil — e que todo o dinheiro veio da iniciativa privada. Sem notas fiscais. Sem contratos. A justificativa: cláusulas de confidencialidade com atores americanos. E o documento não foi entregue ao público, nem às autoridades que investigam o caso: foi entregue a representantes da pré-campanha do próprio Flávio, numa reunião em Brasília. Ou seja: quem prometeu cobrar as contas foi quem as recebeu — de portas fechadas.

Enquanto isso, os números seguem sem fechar. O orçamento aprovado do filme era de US$ 16 milhões. Com Vorcaro, negociou-se US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões. Até a prisão do banqueiro, dono do Banco Master, teriam sido pagos US$ 10,6 milhões, uns R$ 61 milhões. E a produtora declara um custo de R$ 75,1 milhões. Qual desses valores é o verdadeiro? Sem documento, todos — e nenhum.

O pano de fundo é ainda mais grave. A dona da produtora, Karina Gama, também comanda a ONG que mantém um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar Wi-Fi gratuito na periferia. A Operação Wi-Fi apura se dinheiro público desse contrato irrigou a produção do filme. A própria prefeitura já apontou cerca de R$ 12 milhões em notas fiscais suspeitas — algumas canceladas, outras emitidas pela ONG para ela mesma — e cobra a devolução de R$ 906 mil. Dos 5 mil pontos de internet prometidos, 3,2 mil foram entregues; R$ 26 milhões foram pagos adiantado.

E o filme? Esse segue seu curso, indiferente. Nesta semana, a distribuidora Europa Filmes pediu o registro do “Dark Horse” na Ancine — a mesma Ancine que investiga irregularidades nas filmagens. A estreia, que seria antes das eleições, foi empurrada para novembro ou dezembro. Convenientemente, depois das urnas.

O preço político, esse já está sendo pago. Na semana em que os áudios vieram a público, Flávio despencou de 35% para 31% no Datafolha, e a distância para Lula saltou de 3 para 9 pontos. Antes do escândalo, o senador chegara a empatar com o presidente na simulação de segundo turno; hoje, perde. Pior: um mês e meio depois, os números não se moveram — o Datafolha de junho repetiu os mesmos 31%. O eleitor que saiu não migrou para ninguém: virou indeciso, e não voltou. O coordenador da pré-campanha, Rogério Marinho, admitiu que o caso abalou a candidatura. E talvez seja essa a explicação mais honesta para a estreia do filme ter sido adiada: não é cronograma, é sobrevivência.

Agora o calendário aperta. No dia 25 de julho, o PL faz sua convenção em São Paulo para oficializar a candidatura. Em 15 de agosto, vence o prazo de registro no TSE. Entre uma data e outra, o partido carrega um candidato travado no piso bolsonarista, um plano B juridicamente inexistente — Tarcísio de Freitas não se desincompatibilizou a tempo e está fora da disputa por lei — e um banqueiro preso cujo eventual acordo de delação ninguém controla. Dentro da própria casa, Silas Malafaia já defendeu publicamente que Flávio recue. Quando institutos de pesquisa começam a testar cenários com substitutos, é porque alguém encomendou a pergunta.

Não se trata aqui de julgar o mérito do filme, nem de antecipar culpas que cabem à Justiça apurar. Trata-se de constatar que um pré-candidato à Presidência fez uma promessa pública de transparência, com prazo marcado, e deixou o prazo passar em branco — e que o eleitorado, ao contrário da produtora, apresentou sua fatura no prazo.

Resta a grande pergunta, que só o PL pode responder — e tem data para isso: qual caminho o partido vai adotar? Seguir de olhos fechados rumo ao que os números já anunciam como inevitável, ou ter a coragem de apresentar uma saída alternativa capaz de mudar o resultado das eleições? Entre a lealdade ao sobrenome e a leitura da realidade, o prazo — mais uma vez — está correndo. E esse não aceita perícia particular.

Djalmo Manfredi Medeiros, redator Big News