A nova edição do Atlas da Mobilidade Social, plataforma pública e interativa desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab, escancara um retrato cruel e persistente das desigualdades no Brasil. Com base em registros administrativos da Receita Federal e dos ministérios do Trabalho e do Desenvolvimento Social, o estudo revela que a renda dos pais é um “determinante muito forte do destino dos filhos”, e que o local de nascimento, a raça e o gênero definem as reais chances de uma vida melhor.
Os números são contundentes: 48% dos brasileiros que nascem entre os 25% mais pobres do país permanecem nessa mesma faixa de renda na vida adulta. Desses, 23,97% sequer saem do grupo dos 10% mais pobres. Apenas 8,32% conseguem chegar ao grupo dos 25% mais ricos, e um ínfimo 1,28% alcança o topo da pirâmide, integrando os 10% com maior renda.
📍 A geografia da (im)possibilidade: onde você nasce define seu futuro
As desigualdades regionais são um dos fatores mais gritantes do estudo. As oportunidades não se distribuem de forma homogênea pelo país. Enquanto no Sul e no Sudeste as chances de ascensão são maiores, nas regiões Norte e Nordeste o peso da origem familiar é esmagador.
Uma pessoa de classe média — com renda familiar entre R2.183,41eR2.183,41eR 7.266,03 (valores de 2019) — tem, em média, 17,57% de chance de chegar aos 25% mais ricos. Mas essa probabilidade varia brutalmente: no Amazonas, é de apenas 7,99%; em Santa Catarina, salta para 27,15%. Outros estados com alta probabilidade são Mato Grosso (22,24%), Rio Grande do Sul (22,22%) e Paraná (22,11%). Na outra ponta, Acre (8,32%), Amapá (8,35%) e Pará (9,40%) figuram entre os piores.
O acesso ao topo é ainda mais restrito. Mesmo nos estados mais bem colocados, a chance de chegar aos 10% mais ricos não passa de 5,26%; no Amazonas, é de apenas 1,89%.
Segundo Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS, as maiores chances de mobilidade em algumas regiões estão associadas a “maior dinamismo econômico e melhores indicadores de educação, saúde e mercado de trabalho”. Ou seja, a presença e a qualidade de serviços públicos são determinantes para reduzir as desigualdades de origem.
🧬 Raça e gênero: barreiras adicionais em uma escada já íngreme
O Atlas revela que as desigualdades no Brasil são também profundamente marcadas por cor e gênero. Entre os jovens brancos que nasceram no grupo dos 25% mais pobres, 36,3% permanecem nessa condição na vida adulta. Entre os não brancos, essa proporção sobe para 51,6%.
O gênero também é um fator de peso. Entre os homens que nascem na base da pirâmide, 32,9% continuam no mesmo estrato ao chegar à vida adulta. Entre as mulheres, o percentual é quase o dobro: 65,1%. A intersecção entre raça e gênero aprofunda ainda mais a desigualdade: enquanto 69% das mulheres não brancas permanecem entre os 25% mais pobres, entre as mulheres brancas esse percentual é de 52,9%.
🏔️ A perpetuação da riqueza: o topo que se fecha
Enquanto a ascensão dos pobres é uma exceção, a perpetuação da riqueza é a regra. O Atlas mostra que 56,5% dos filhos das famílias que estão entre os 25% mais ricos continuam nesse mesmo estrato quando adultos. Entre eles, 30,8% chegam ao seleto grupo dos 10% mais ricos. Ou seja: um filho de uma família rica tem quase sete vezes mais chance de permanecer no topo do que um filho de uma família pobre tem de enriquecer.
Para Paulo Tafner, presidente do IMDS, o dado é inequívoco: “Como a sociedade brasileira é extremamente estratificada por renda, a renda dos pais é um determinante muito forte do destino dos filhos”.
🔧 As ferramentas para virar o jogo: programas sociais e mobilidade
Diante de um quadro tão desolador, a pergunta que se impõe é: o que pode ser feito? A resposta, segundo os pesquisadores, passa por políticas públicas estruturantes que atuem como verdadeiras escadas de mobilidade social — ferramentas que não apenas aliviem a pobreza no curto prazo, mas que criem condições para que as próximas gerações possam, de fato, romper o ciclo da reprodução intergeracional da pobreza.
“Para que esse quadro mude de forma mais significativa, é necessário oferecer melhores oportunidades para os filhos de famílias mais pobres, como educação de qualidade e empregos com remuneração mais elevada”, destaca Fernando Veloso.
O Brasil já possui um conjunto de programas sociais que, embora ainda insuficientes diante da magnitude do problema, têm demonstrado impacto na mobilidade social:
📌 Bolsa Família: a base que sustenta e abre portas
O Programa Bolsa Família é frequentemente citado como um dos pilares da redução da pobreza extrema no país. Mais do que uma transferência de renda, ele opera como um catalisador de mobilidade, ao condicionar o benefício à frequência escolar e ao acompanhamento de saúde das crianças. Estudos mostram que municípios com maiores taxas de formalização dos jovens oriundos do Bolsa Família tendem a apresentar maiores níveis de mobilidade intergeracional. A condicionalidade educacional, em particular, ajuda a quebrar o ciclo da pobreza ao investir no capital humano das novas gerações.
🎓 ProUni: o diploma como passaporte para a classe média
O Programa Universidade para Todos (ProUni), que completa 20 anos em 2025, é uma das principais ferramentas de mobilidade social do país. Com a oferta recorde de 594.519 bolsas no primeiro semestre de 2026, o programa concede bolsas integrais e parciais em instituições privadas para estudantes de baixa renda. Pesquisas indicam que o ProUni tem um efeito positivo e significativo na mobilidade social intergeracional, especialmente para os bolsistas integrais. O diploma de nível superior continua sendo um dos principais fatores associados à ascensão de renda no Brasil.
🛠️ Pronatec: qualificação profissional e inserção no mercado
O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) oferece cursos técnicos e de qualificação profissional gratuitos, com o objetivo de ampliar o acesso à educação profissional e tecnológica. Ao conectar jovens e trabalhadores às demandas do mercado de trabalho, o Pronatec atua como uma ponte para empregos com melhor remuneração, contribuindo para a inclusão produtiva e a redução da vulnerabilidade.
🏠 Minha Casa Minha Vida: moradia como base para o desenvolvimento
O programa habitacional Minha Casa Minha Vida, embora tenha sido criticado por promover a “periferização” das classes mais pobres, ampliou o acesso à moradia formal para milhões de brasileiros. A estabilidade habitacional é um fator essencial para que as famílias possam planejar o futuro, investir em educação e buscar melhores oportunidades de trabalho.
🧭 O que falta: o desafio da escala e da qualidade
Apesar da existência desses programas, o Atlas da Mobilidade Social deixa claro que eles ainda são insuficientes para reverter, em escala significativa, a rigidez da estrutura social brasileira. Os pesquisadores do IMDS apontam que é necessário não apenas ampliar o acesso, mas também melhorar a qualidade dos serviços públicos — especialmente na educação básica — e eliminar mecanismos que favorecem a perpetuação das desigualdades, como privilégios e isenções tributárias que beneficiam os mais ricos.
O balanço de 2025, citado pelo Observatório do Terceiro Setor, é claro: a mobilidade social no Brasil não avançará de forma consistente sem coordenação, visão de longo prazo e investimento estrutural em pessoas e territórios.
Com informações de Agência Brasil, Extra, Folha de S.Paulo, G1, IMDS, Jornal de Brasília, O Estado de S.Paulo, O Globo, O Tempo e Observatório do Terceiro Setor.