Depois de meses de guerra, o presidente dos Estados Unidos anunciou que o país vai “guardar” o Estreito de Ormuz — e cobrar por isso. A retórica é de proteção; a prática, de extorsão. E o mais revelador é que nem o próprio governo americano, um mês atrás, achava isso defensável.

Nesta segunda-feira (13), Donald Trump anunciou que os Estados Unidos vão retomar o bloqueio naval a portos iranianos e cobrar uma taxa de 20% sobre toda carga que atravessar o Estreito de Ormuz — o equivalente a cerca de US$ 250 milhões por dia, segundo estimativas baseadas no valor diário do petróleo que passa pela rota. Em publicação na Truth Social, o presidente foi direto: os EUA serão conhecidos, “a partir deste momento”, como “O GUARDIÃO DO ESTREITO DE ORMUZ” e, “por uma questão de justiça”, serão reembolsados. Em entrevista à Fox News, completou: “Nós guardamos o estreito por 50 anos — mais — e nunca fomos pagos por isso.”

A frase é a confissão mais honesta que Washington já deu sobre sua presença no Oriente Médio: não é sobre segurança compartilhada, é sobre fatura. E o constrangimento é ainda maior porque, há menos de três semanas, o próprio governo americano dizia o oposto. Em 25 de junho, em Barein, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que “nenhum país pode cobrar pedágio ou taxa em uma via navegável internacional” e que “não há nação na Terra que apoie ter que pagar para passar pelo estreito”. A declaração de Rubio, que viralizou horas depois do anúncio de Trump, não foi um deslize: foi a posição oficial dos EUA num acordo de paz que eles mesmos ajudaram a costurar. Bastou o acordo desmoronar para a régua virar contra quem ele dizia proteger.

Vale lembrar o tamanho do que está em jogo. Ormuz é a única saída do Golfo Pérsico para o oceano aberto: por ali passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia — um quinto do comércio marítimo mundial de óleo —, além de parcela relevante do gás natural liquefeito e cerca de 30% das exportações globais de fertilizantes. Desde que a guerra começou, em 28 de fevereiro, com ataques dos EUA e de Israel que mataram o líder supremo iraniano e uma série de autoridades, o fluxo por Ormuz virou refém do conflito — e o preço da ureia já subiu entre 20% e 60% no mercado global, ameaçando as safras do Hemisfério Norte segundo alertas da FAO e da ONU.

O Irã rejeitou a proposta de Trump na mesma hora. Autoridades militares classificaram como “ato de guerra contra a soberania iraniana” qualquer cooperação de países vizinhos com a manobra americana, e a Guarda Revolucionária prometeu resposta “decisiva” a qualquer tentativa dos EUA de controlar a passagem de navios — o mesmo papel que o Irã, na sua leitura do acordo de junho, entendia ser prerrogativa sua. Não é retórica vazia: nas últimas 48 horas, forças americanas atacaram pela primeira vez com drones navais de combate — os USV “Corsair” — uma instalação de manutenção de submarinos em Bandar Abbas, e o Irã revidou com mísseis e drones contra bases dos EUA e aliados na Jordânia (Base Aérea Príncipe Hassan), além de mirar Barein, Catar, Kuwait, Omã e Emirados Árabes. Barein confirmou ter interceptado os projéteis; o Catar, o mesmo. Rastreadores independentes do conflito estimam entre 7 mil e quase 10 mil mortos desde fevereiro, a maioria no Irã (estimativas de 3,5 mil a 6 mil) e no Líbano (quase 3,7 mil) — números que variam por fonte, mas que não deixam dúvida sobre a escala humana da conta que ninguém em Washington menciona.

O acordo que deveria ter encerrado tudo isso — o Memorando de Islamabad, assinado eletronicamente por Trump e pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian em 17 de junho, com 60 dias previstos de negociação — não resistiu nem um mês. Trump já declarou o cessar-fogo “encerrado”, ao mesmo tempo em que diz manter “a porta aberta” para conversas. É a marca de uma administração que substitui estratégia por instinto: quando a persuasão falha, resta a coerção; quando falta força para impor, resta a cobrança.

E a cobrança não tem amparo legal. O secretário-geral da Organização Marítima Internacional, Arsenio Dominguez, foi taxativo: “não há base legal” para impor taxas de passagem num estreito de navegação internacional, já que a Convenção do Mar da ONU garante o direito de trânsito sem ônus financeiro a navios comerciais. A OMI já havia dito o mesmo quando era o Irã que ensaiava cobrar pedágio — a régua da lei internacional, ao menos essa, não muda conforme o cobrador.

Há um pano de fundo maior, e mais de um analista já o descreveu. A economista Mona Ali comparou o momento a 1956, quando o Egito fechou o Canal de Suez por cinco meses e quebrou, ali, a hegemonia da libra esterlina — abrindo caminho para a era do petrodólar americano. Para ela, “Ormuz tornou imaginável o fim da hegemonia americana”. Não é uma frase gratuita: um país que precisa transformar sua presença militar histórica numa cobrança explícita de pedágio está, na prática, admitindo que já não sustenta sua influência pela simples força do próprio nome — precisa monetizá-la, como quem tenta vender o que está prestes a perder.

A pergunta que fica não é se os Estados Unidos vão conseguir cobrar os 20%. É se o mundo — Irã, China, os países do Golfo, os BRICS que já discutem alternativas ao dólar — ainda vai aceitar pagar, em dinheiro e em vidas, a fatura de um império que anuncia sua própria decadência a cada comunicado triunfalista que publica.

Djalmo Manfredi Medeiros, redator Big News