O clã Bolsonaro está novamente no centro das atenções, desta vez com os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio e Eduardo, retomando a ofensiva contra a credibilidade do processo eleitoral brasileiro. Em discursos recentes, ambos seguiram à risca a cartilha do patriarca, questionando a legitimidade das instituições democráticas e acusando-as de perseguir a família. A estratégia, no entanto, não é nova. É a reprodução de um roteiro já testado e que resultou na prisão de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado. Ao insistirem no mesmo caminho, Flávio e Eduardo não apenas reeditam o passado, mas demonstram que a derrota judicial do pai não serviu de lição.

A Estratégia Falida do Patriarca: da Desconfiança à Prisão

A estratégia de atacar o sistema eleitoral para deslegitimar o resultado das urnas não é invenção dos filhos. Foi meticulosamente construída e executada por Jair Bolsonaro ao longo de anos.

O ex-presidente foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado. A Procuradoria-Geral da República (PGR) reiterou que os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 foram o “ponto culminante de um processo golpista coordenado durante anos, que começou em meados de 2021 com ataques deliberados às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral.

O roteiro era claro: semear a desconfiança no sistema eleitoral, questionar a lisura das eleições e, por fim, recusar-se a aceitar o resultado. Essa narrativa, alimentada por anos, culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. O desfecho para o mentor da trama foi a prisão e a inelegibilidade — um preço que, ao que tudo indica, os herdeiros consideram um risco aceitável.

Os Herdeiros do Golpismo: Flávio e Eduardo Repetem o Roteiro

Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência da República, discursou para cerca de 40 diplomatas na última terça-feira (21/7), reforçando a narrativa de que o processo eleitoral brasileiro é viciado. Ele afirmou a diplomatas que as urnas eletrônicas seriam de uma empresa venezuelana — uma alegação falsa que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já desmentiu.

A fala não foi um deslize. O histórico de Flávio escancara uma estratégia contínua e deliberada, reproduzida fielmente da cartilha de seu pai. Ele mantém a narrativa sobre a empresa Smartmatic — uma teoria da conspiração que sustenta há 11 anos. A ironia, como destacam analistas, é que Flávio foi eleito sucessivas vezes pelo próprio sistema que ataca.

Eduardo Bolsonaro, que se refugiou nos Estados Unidos desde março do ano passado, também entrou na dança. Em uma live com o consultor político argentino Fernando Cerimedo — indiciado no inquérito do golpe —, Eduardo voltou a levantar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral, afirmando que as eleições de outubro “já não são mais democráticas”.

A jogada é calculada. Para especialistas, trata-se de pavimentar antecipadamente o terreno para não reconhecer uma possível derrota nas urnas, espelhando a tática do ex-presidente americano Donald Trump. O bloqueio de visitas ao ex-presidente — uma reação direta à desobediência de Jair e Flávio, que violaram as regras da prisão domiciliar — virou pretexto para o clã ressuscitar a narrativa golpista.

A Jogada de Michelle: Fissura ou Estratégia?

Michelle Bolsonaro, esposa de Jair, também tem sido alvo de especulações. Recentemente, um vídeo com ataques duros contra Flávio Bolsonaro foi divulgado, levantando questionamentos sobre as verdadeiras intenções por trás desse gesto.

Ela respondeu ao vídeo do senador, em que ele pedia desculpas e apoio na eleição presidencial. Em suas declarações, Michelle indicou que vai ajudar o presidenciável do PL, mas expôs conflitos internos que analistas consideram prejudiciais à pré-campanha.

A pergunta que fica é: seria uma jogada combinada para ocupar espaço e reforçar a marca da família, ou uma tentativa de Michelle de se distanciar das ações golpistas de seu marido e cunhado? Fontes próximas a Michelle indicam a possibilidade de candidatura ao Senado, o que adiciona mais um elemento de disputa interna.

Conclusão: A Estratégia que Insiste em se Repetir

O que se vê é a reprodução de um roteiro ensaiado: atacar as urnas, desacreditar as instituições e preparar o terreno para não aceitar resultados adversos. Jair Bolsonaro tentou, foi condenado e está preso. Flávio e Eduardo, mesmo diante do exemplo do pai, insistem em repetir os mesmos erros.

A estratégia é não apenas falida, mas perigosa. Ela mina a confiança na democracia, alimenta a instabilidade e desrespeita a vontade popular. Como bem lembrou a bancada do programa “Noblat”, os filhos de Bolsonaro agem como se pudessem “rasgar ordens judiciais e tratar o país como extensão dos seus interesses familiares”. O preço dessa arrogância, como o patriarca já aprendeu, pode ser alto demais.


Com informações de Metrópoles, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, G1 e outros.