A operação que bateu à porta de Porto Belo e Bombinhas tem o nome mais honesto dos últimos tempos: investiga o circo pago com dinheiro público — enquanto, em Brasília, o pão do trabalhador segue trancado numa gaveta do Senado.

Na terça-feira, a Costa Esmeralda acordou com o Gaeco na porta. A Operação Pão e Circo, do Ministério Público de Santa Catarina com a Polícia Civil, cumpriu 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios — 18 catarinenses e Porto Alegre —, com bloqueio de cerca de R$ 9 milhões em bens e uma prisão preventiva. Entre os endereços visitados: o setor de licitações da Prefeitura de Porto Belo, a casa do prefeito Joel Lucinda (MDB), repartições em Bombinhas e uma empresa sediada em Itapema.

A suspeita, segundo o MPSC, é a existência de um cartel de empresários do setor de eventos que, em conluio com agentes públicos, fraudava licitações para dominar o mercado de shows com artistas de renome nacional — eliminando concorrência, manipulando preços, pagando e recebendo propina e lavando o dinheiro. Levantamento do Tribunal de Contas do Estado citado pela imprensa dá a dimensão do negócio: as empresas do grupo disputaram 461 licitações, venceram 339 e faturaram R$ 53,9 milhões em contratos públicos. O único preso até agora é o empresário José Clemir Spinelli, dono da Spinelli Produções, detido em Itapema — onde fica a sede da empresa; a prefeitura itapemense não é alvo e não há agente público do município investigado, segundo a própria administração. Em Porto Belo, conforme noticiado, foram apreendidos o celular do prefeito e R$ 58 mil em espécie; a prefeitura afirma que o valor está declarado no Imposto de Renda, que outras quantias pertencem a familiares e que colabora com as investigações. Segundo a imprensa, nove prefeitos ou ex-prefeitos estão entre os alvos, e o prefeito de Governador Celso Ramos, Marcos Henrique da Silva (PL), foi afastado do cargo.

Registre-se o óbvio: investigação não é condenação, e todos os citados têm presunção de inocência. Mas há um contexto que nenhum catarinense pode mais fingir não ver. Com a Pão e Circo, Santa Catarina reafirma uma marca constrangedora: 30 prefeitos presos por suspeita de corrupção desde 2020 — mais de 10% dos 295 municípios do estado. A Operação Mensageiro, a maior da história catarinense, prendeu sozinha 17 prefeitos e já produziu condenações que passam de décadas de prisão. E o ranking partidário dos presos desmonta qualquer leitura torcida: MDB lidera com nove, PP tem seis, PL tem cinco. Não é um partido, não é um campo ideológico — é um método. Onde há máquina municipal e licitação gorda, o esquema se instala, seja o contrato de lixo, de asfalto ou de palco.

E é aqui que o nome da operação vira, involuntariamente, a melhor síntese do momento político brasileiro. Pão e circo, a velha receita romana: distrair o povo enquanto se decide o que importa longe dele. O circo, em Santa Catarina, era literal — shows milionários bancados pelo contribuinte, com cartel na coxia. E o pão? O pão está em Brasília, mofando. A PEC do fim da escala 6×1, que reduz a jornada para 40 horas e garante dois dias de descanso, foi aprovada em maio pela Câmara com ampla maioria — e está parada no Senado, onde o presidente Davi Alcolumbre já avisou a aliados que não pretende votá-la antes das eleições, enquanto negocia mudanças no texto com o setor empresarial. A mesma Câmara que aprovou o fim da 6×1 encontrou tempo e 353 votos para aprovar a PEC da Blindagem, que amplia a proteção de parlamentares contra investigações — texto que a própria oposição, em parecer, aponta como inconstitucional, e que o Supremo ainda vai examinar.

O contraste dispensa retórica. Para proteger mandato, o Congresso vota em dois turnos numa semana. Para garantir o descanso de quem trabalha seis dias por sete, não há calendário. Para o show na praça, havia R$ 53,9 milhões — e, segundo o Gaeco, até fila organizada de quem ia faturar. A conta do circo, como sempre, é pública. O pão, esse segue racionado — e sem data para sair do forno.

Djalmo Manfredi Medeiros, redator Big News