A Coreia do Sul se prepara para lançar um programa inédito de acesso gratuito a serviços de inteligência artificial generativa para toda a população. De acordo com reportagem do The Wall Street Journal, a iniciativa batizada de “AI for All” tem como objetivo ampliar o uso da tecnologia entre os sul-coreanos e, ao mesmo tempo, diminuir a dependência do país em relação a ferramentas desenvolvidas nos Estados Unidos e na China.
Os testes do programa começam em setembro, com lançamento completo previsto ainda para este ano. Três consórcios sul-coreanos serão responsáveis por fornecer os serviços, contando com apoio do governo tanto em infraestrutura computacional quanto em despesas de operação. Entre os participantes estão as duas maiores empresas de telecomunicações do país e a operadora do Kakao, um dos principais aplicativos de mensagens e serviços digitais da Coreia do Sul.
Aplicações práticas no dia a dia
A proposta é integrar os chatbots de IA a situações cotidianas da população. As ferramentas poderão se conectar a sistemas governamentais para ajudar moradores a marcar consultas médicas, buscar apartamentos e obter orientações sobre impostos. Pequenas empresas também poderão utilizar a IA para calcular tributos e verificar elegibilidade em programas de apoio do governo. Já para os pais, o sistema oferecerá sugestões de conteúdos educacionais voltados aos filhos.
O acesso aos serviços apoiados pelo governo será ilimitado. Cada um dos três consórcios lançará seu próprio aplicativo, mas as ferramentas também serão integradas a plataformas que os sul-coreanos já utilizam no dia a dia, facilitando a adoção em massa.
Terreno fértil e histórico tecnológico
Segundo o MIT Technology Review, a iniciativa encontra na Coreia do Sul um público especialmente receptivo: os sul-coreanos são descritos como entusiastas de novas tecnologias, com exemplos que vão de robôs humanoides e ídolos virtuais a diversas aplicações de inteligência artificial já incorporadas ao cotidiano. Essa disposição tem raízes na própria história econômica do país, que desde o fim da Guerra da Coreia passou por sucessivos ciclos de desenvolvimento tecnológico, incluindo aço, construção naval, semicondutores, banda larga e smartphones. Atualmente, gigantes como Samsung e SK Hynix fornecem grande parte das memórias de alta largura de banda usadas pelo hardware da Nvidia para treinar modelos de IA.
Investimento bilionário e meta ambiciosa
O presidente Lee Jae-myung estabeleceu uma meta clara para o país: colocar a Coreia do Sul entre as três maiores potências mundiais em inteligência artificial. Para isso, o governo reservou cerca de 10 trilhões de won (aproximadamente R$ 37 bilhões) para gastos relacionados à IA em 2026 — montante três vezes maior que o do ano anterior. No âmbito do “AI for All”, os três consórcios poderão receber até 512 chips Nvidia B200 cada, além de apoio governamental nas despesas de operação, embora o custo específico do programa ainda não tenha sido divulgado.
A iniciativa, no entanto, expõe também uma contradição. Segundo o MIT Technology Review, apesar do uso intenso de IA pela população, há preocupação crescente com a possibilidade de a tecnologia eliminar postos de trabalho. Sindicatos já reagiram à adoção de robôs humanoides em fábricas do país. Ainda assim, o governo sul-coreano segue adiante com o plano de levar ferramentas de IA a praticamente todos os cidadãos, buscando ao mesmo tempo fortalecer sua própria indústria tecnológica e reduzir a dependência de modelos estrangeiros.
Com informações de Olhar Digital. Fonte original.