Um ano após a dispersão da Cracolândia, que retirou de cena as aglomerações de dependentes químicos a céu aberto conhecidas como “fluxo”, coletivos e profissionais que atuam na região central de São Paulo — entre eles médicos, assistentes sociais e redutores de danos — relatam dificuldade para dar continuidade aos atendimentos voltados a essa população. Segundo essas fontes, a pulverização do fluxo impede, na maioria das vezes, a localização dos usuários, o que trava as assistências prestadas havia anos.

A dispersão ocorreu em maio de 2025, quando a maior cena aberta de uso de drogas do estado amanheceu vazia. Seis meses depois, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que uma série de políticas públicas integradas, desenvolvidas em parceria com a Prefeitura de São Paulo, havia posto fim à Cracolândia. Em publicação nas redes sociais, o governador disse que o resultado não foi “mágica”, mas fruto de “trabalho coordenado, com inteligência e com objetivos muito claros: cuidar das pessoas, combater o crime e devolver o centro de São Paulo ao cidadão”.

Cena aberta se espalhou, segundo apuração

Apesar da versão oficial, reportagem do Metrópoles mostrou que a cena aberta de uso de drogas não desapareceu, mas se espalhou pela região. O chamado “Dossiê da Cracolândia” apontou que a dispersão foi marcada por abusos policiais, ações de caráter higienista e internações em massa. Segundo relatos de testemunhas, a Guarda Civil Municipal estaria impedindo os usuários de se aglomerarem, obrigando-os a permanecer em constante movimento. Muitos dependentes também teriam sido submetidos a internações compulsórias, com exigência de abstinência total.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que o acolhimento dessa população é um trabalho permanente, feito em parceria com o governo do estado, e afirmou ter ampliado a rede de atendimento social e de saúde destinada a esse público. Já o governo estadual disse que as ações que resultaram no fim da antiga Cracolândia priorizaram segurança pública, saúde e assistência social, e que as medidas não interromperam o atendimento nem a busca ativa na região. O estado afirmou ainda ter investido R$ 243,5 milhões, entre 2023 e 2026, na estrutura de proteção social da Política Estadual sobre Drogas.

Abandono de tratamentos preocupa profissionais

Para coletivos e profissionais de saúde, o “espalhamento” dos usuários é criticado porque, uma vez afastados e sem localização fixa, os dependentes abandonam tratamentos e ficam ainda mais vulneráveis. O psiquiatra Flavio Falcone, que atua na Cracolândia desde 2010, afirma que as políticas públicas tendem a colocar a abstinência total como objetivo principal, embora esse modelo funcione para apenas cerca de 10% dos pacientes. Segundo ele, quando o paciente não consegue cumprir essa meta, surge uma frustração que muitas vezes leva ao abandono do tratamento.

Marcel Segalla, pesquisador de temas ligados à saúde coletiva, drogas e cultura corporal e mestre em ciência da saúde pela Escola de Enfermagem da USP, relata que, após a dispersão, tornou-se difícil até mesmo saber se pessoas acompanhadas havia mais de uma década continuavam vivas e em tratamento contra tuberculose ou HIV. Questionada, a Guarda Civil Municipal não confirmou orientação para “dispersar” os dependentes, mas afirmou realizar policiamento preventivo e ostensivo com foco no combate ao tráfico de drogas, além de promover o ordenamento do espaço público em conformidade com a legislação. A corporação disse encaminhar casos de ilícitos à autoridade policial e atuar de forma integrada com Subprefeituras, Assistência Social, Saúde e, quando necessário, com apoio da Polícia Militar.

O impacto na saúde vai além do tratamento contra o uso de drogas, já que muitos frequentadores do fluxo são portadores do vírus HIV e precisam de acompanhamento médico frequente e acesso constante a medicações. Com a perda de localização dos usuários, esse acompanhamento se torna ainda mais difícil, o que representa risco à vida, segundo Falcone. O médico cita o caso de uma paciente HIV positivo que acompanhava desde 2013 e que, após a dispersão, parou o tratamento porque as equipes de saúde não conseguiam mais encontrá-la para administrar a medicação necessária. Segundo ele, a paciente contraiu uma tuberculose resistente e morreu em decorrência da interrupção do tratamento.

Com informações de Metrópoles. Fonte original.