A afirmação do vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) de que o governo Lula teria liberado R$ 520 milhões para propaganda institucional, um valor mais que o dobro do que foi destinado pelo governo de Jair Bolsonaro no mesmo período de 2022, é factualmente correta. No entanto, uma análise aprofundada do contexto orçamentário e legal revela que essa comparação, embora verdadeira, omite nuances importantes sobre como os gastos com publicidade oficial são realizados em anos eleitorais.

A seguir, uma verificação detalhada dos números e dos mecanismos que regem esses gastos.


1. A Afirmação de Carlos Bolsonaro e a Verificação dos Fatos

A alegação: O governo Lula empenhou R520milho~esempublicidadeinstitucional,maisqueodobrodogastodeR 213,5 milhões do governo Bolsonaro no mesmo período de 2022.

A verificação: A declaração está correta. Dados da Secretaria de Comunicação Social (Secom) mostram que, de janeiro a junho de 2026, o governo Lula empenhou R520milho~es∗∗paraaac\ca~oorc\camentaˊriade”comunicac\ca~oinstitucional”.Nomesmoperıˊodode2022,ogovernoBolsonarohaviaempenhado∗∗R 213,5 milhões para a mesma finalidade.

É importante notar que ambos os gastos foram realizados no primeiro semestre dos respectivos anos eleitorais (2022 e 2026). A concentração da verba nesse período não é arbitrária, mas uma exigência da legislação eleitoral, que a partir de 4 de julho (o chamado “defeso eleitoral”) restringe drasticamente a propaganda institucional para evitar o uso da máquina pública em benefício de candidatos à reeleição.


2. O Contraponto: Gastos do Governo Bolsonaro com Publicidade

Embora a comparação direta com o primeiro semestre de 2022 seja precisa, ela não reflete a totalidade dos gastos com publicidade do governo anterior. Uma análise do período completo de 2019 a 2022 oferece um panorama diferente.

Gastos totais e anuais

Levantamentos mostram que o governo Bolsonaro gastou, em média, R1,8bilha~oporano∗∗compropaganda,considerandodadosdogovernofederaledesuasprincipaisestatais.Emcontrapartida,ogovernoLula(ateˊ2025)teveumgastomeˊdioanualde∗∗R 2 bilhões.

Além disso, dados consolidados apontam que, nos quatro anos do governo Bolsonaro (2019-2022), os gastos com publicidade da Secom totalizaram R1,489bilha~o∗∗.Emapenasdoisanos(2024−2025),ogovernoLulajaˊhaviadestinado∗∗R 1,476 bilhão à mesma finalidade.

O “pacote” de 2022 e a concentração de gastos

O ano de 2022 também foi marcado por um esforço concentrado de comunicação. Entre as principais campanhas publicitárias do governo Bolsonaro naquele ano, estavam as de “Governo Fraterno”, “Governo Trabalhador” e “Governo Honesto”, que juntas custaram R89milho~es∗∗econsumiram60 47,9 milhões.

3. A Polêmica e a Reação do Governo

O valor de R$ 520 milhões empenhado pelo governo Lula gerou reações políticas e jurídicas.

  • Ação no TSE: O Partido Liberal (PL) protocolou uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a suspensão imediata das peças publicitárias do governo. O partido alega que os gastos teriam ultrapassado o teto legal, somando R785milho~esateˊ18dejunho,cercade30 618 milhões.

  • Decisão Judicial: Em 16 de junho, a Justiça Federal determinou a suspensão de anúncios patrocinados pelo governo Lula nas redes sociais que defendiam o fim da escala 6×1. A decisão entendeu haver indícios de uso de recursos públicos para promover uma proposta legislativa.

  • Defesa do Governo: A Secretaria de Comunicação Social (Secom) defendeu os gastos, afirmando que todas as despesas respeitam os limites legais e que comparações com outros governos devem considerar as especificidades de cada período e as políticas públicas em execução.

4. O que está em jogo?

A discussão vai além de uma simples comparação de números. Ela toca no centro do debate sobre o uso da máquina pública em benefício de campanhas eleitorais e os limites éticos e legais da comunicação governamental.

  • A lógica do “defeso”: A legislação eleitoral existe para coibir o que Carlos Bolsonaro chama de “campanha disfarçada”. O argumento do governo é que a propaganda institucional é necessária para informar a população sobre políticas públicas, e os gastos estão dentro da lei.

  • A crítica da oposição: A oposição vê os números como uma prova de que o governo está usando recursos públicos para alavancar a candidatura de Lula à reeleição, numa tentativa de “comprar narrativa com dinheiro público”.

  • O que a lei permite: A lei permite gastos com publicidade institucional, mas estes não podem promover candidatos ou partidos. A Justiça Eleitoral e a Justiça Comum têm o papel de fiscalizar e coibir abusos, como já ocorreu com a suspensão de algumas campanhas.

Conclusão

A afirmação de Carlos Bolsonaro sobre os R$ 520 milhões é verdadeira. O dado é um fato e serve como um importante marcador da estratégia de comunicação do governo Lula em ano eleitoral. No entanto, ao apresentar esse número de forma isolada, sem o contexto da legislação eleitoral e sem mencionar os gastos totais e o histórico do governo anterior, a crítica do vereador, embora baseada em um fato, omite nuances relevantes para uma análise completa do cenário.

Ambos os governos, em seus respectivos anos eleitorais, realizaram gastos expressivos com publicidade oficial, dentro das regras e limites do período, ainda que sempre sujeitos ao escrutínio da Justiça e da oposição. A verdadeira questão, portanto, não é se um governo gasta mais que o outro, mas se os gastos, em qualquer gestão, estão sendo feitos para informar a população ou para promover uma candidatura.