A decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de recusar a escolta da Polícia Federal (PF) durante a campanha presidencial expõe uma contradição histórica que a memória política brasileira não pode ignorar. O mesmo filho que, em setembro de 2018, afirmou que uma facada “elegeu” seu pai, agora se recusa a ser protegido exatamente pela instituição que prendeu o agressor e conduziu as investigações — e cujos agentes, em 2026, seriam responsáveis por sua segurança.


A Recusa e a Desconfiança

O senador rejeitou formalmente a escolta oferecida pela PF, optando por manter seguranças contratados pelo PL e pela Polícia Legislativa do Senado, que já atuam em sua proteção desde 2019. Segundo aliados, a decisão reflete a percepção de que a PF estaria “aparelhada” pelo governo Lula.

O principal temor é o vazamento de agendas, estratégias de campanha e conversas privadas — um receio agravado pelo escândalo do Banco Master, que expôs diálogos entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre repasses de R$ 61 milhões para o filme “Dark Horse”. As investigações da Operação Compliance Zero também revelaram suspeitas de que o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido vantagens da mesma instituição, reforçando a complexidade do cenário.

A PF, por sua vez, já apresentou aos partidos um plano de segurança para a campanha, com análise contínua de riscos, monitoramento de ameaças físicas e cibernéticas, e atuação integrada com órgãos de segurança pública.


A Profecia de 2018: “Vocês acabaram de eleger o presidente”

Em 6 de setembro de 2018, Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, era carregado nos ombros por apoiadores em Juiz de Fora (MG) quando foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira. O golpe de faca causou três lesões no intestino delgado e uma perfuração em uma veia do abdômen, com forte hemorragia. O candidato passou por cirurgia de emergência e ficou internado.

Ainda na porta da Santa Casa, Flávio Bolsonaro fez uma declaração que entraria para a história política do país: “Vocês acabaram de eleger o presidente” .

A profecia se mostrou acertada. O atentado mudou o rumo da campanha: candidatos adversários suspenderam eventos e interromperam ataques a Bolsonaro, temendo a repercussão negativa de atacar um concorrente que lutava pela vida. Como observou o cientista político Paulo Roberto Figueira Leal, da UFJF, a continuidade dos ataques provavelmente elevaria ainda mais a rejeição a Bolsonaro. O episódio consolidou a imagem do então deputado do “baixo clero” como candidato antissistema e, em outubro, Jair Bolsonaro foi eleito presidente com 55% dos votos.


A Contradição: da Confiança à Desconfiança

A ironia histórica é inescapável. A PF que Flávio Bolsonaro hoje desconfia prendeu o agressor de seu pai em flagrante e conduziu as investigações sobre o atentado. A mesma instituição que ajudou a criar as condições para a eleição de 2018, ao garantir a segurança jurídica e a apuração do crime, é agora tratada como inimiga.

Se em 2018 a facada — e a atuação das forças de segurança — ajudou a eleger seu pai, em 2026 o filho prefere cercar-se de seguranças privados a confiar na PF. A decisão revela menos uma avaliação objetiva de risco do que a percepção de que a instituição, antes vista como aliada, tornou-se adversária em um jogo político cada vez mais polarizado.


A Visão da PF e o Contexto Político

A PF apresentou um plano de segurança especial aos partidos, prometendo neutralidade total na proteção dos candidatos. A Diretoria de Proteção à Pessoa escalaria agentes com treinamento específico para acompanhar os presidenciáveis.

A recusa de Flávio, no entanto, não é isolada. Ela reflete uma desconfiança mais ampla em relação às instituições federais, alimentada por anos de embates entre o bolsonarismo e o sistema de justiça — e agravada pelos desdobramentos do caso Banco Master, que expuseram diálogos privados do senador.


Conclusão

A decisão de Flávio Bolsonaro de recusar a escolta da PF carrega um simbolismo que transcende a segurança pessoal. É o gesto de um candidato que desconfia da mesma instituição que, em 2018, ajudou a criar as condições para a ascensão de seu pai. É a marca de um tempo em que a polarização política transformou até a proteção da vida em campo de batalha.

Em 2018, Flávio profetizou que a facada havia eleito seu pai. Em 2026, ao recusar a PF, ele parece temer que a mesma instituição possa, agora, desmontar sua candidatura — não com violência, mas com o vazamento de conversas que não deveriam vir a público. A ironia, para quem acompanha a política brasileira, é tão evidente quanto dolorosa.