Flávio Bolsonaro e o Voto Feminino: Estratégia, Desafios e o Impacto do Escândalo do Banco Master
O pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) está em uma corrida para superar um de seus maiores desafios eleitorais: a resistência entre as mulheres. Numa tentativa de reverter esse quadro, o senador tem apostado em nomes femininos do campo conservador e em acenos públicos ao eleitorado. No entanto, sua estratégia enfrenta obstáculos significativos — desde a falta de entusiasmo de sua própria madrasta até o impacto direto do escândalo do Banco Master sobre sua imagem e suas intenções de voto.
A Estratégia para o Eleitorado Feminino
A preocupação da campanha de Flávio com as eleitoras é baseada em números claros. Uma pesquisa Genial/Quaest mostrou que a intenção de voto para o senador no primeiro turno é de 24% entre as mulheres, contra 34% entre os homens. Para tentar reduzir essa diferença, Flávio tem intensificado os acenos ao público feminino.
A principal aposta é a indicação de uma mulher como vice-presidente em sua chapa. Em evento com cerca de 200 empresárias em São Paulo, organizado pelo Grupo Voto, Flávio declarou: “O que eu posso falar é que o perfil é de alguém que complemente a nossa chapa, uma pessoa preparada. De preferência, uma mulher”.
Entre os nomes cotados para a vaga estão a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e as deputadas federais Simone Marquetto (PP-SP) e Clarissa Tércio (PP-PE). O nome que ganhou maior destaque recentemente é o da deputada Julia Zanatta (PL-SC), cotada como possível vice e mencionada publicamente por Eduardo Bolsonaro. Além disso, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques, também tem sido elogiada por Flávio como potencial nome para a área econômica.
Outra liderança considerada central nessa estratégia é a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Ex-ministra de Jair Bolsonaro, Damares mantém forte capital político entre o eleitorado evangélico feminino, com conexões que se estendem especialmente à região Norte. Seu discurso em defesa das crianças e do combate à exploração infantil segue sendo seu principal ativo político entre mulheres religiosas.
O Fator Familiar: A Resistência de Michelle Bolsonaro
Um dos principais obstáculos à estratégia de Flávio parte de dentro da própria família. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro frustrou as expectativas da campanha ao não fazer um aceno enfático à candidatura do enteado durante evento em Brasília.
Nos bastidores, integrantes da equipe de Flávio esperavam que Michelle fizesse uma manifestação explícita de apoio ao projeto presidencial do filho mais velho de Jair Bolsonaro. O gesto, porém, não veio. Em conversa com jornalistas, Michelle limitou-se a dizer que apoiará o senador “no momento certo” — declaração considerada insuficiente por aliados, que avaliam que a candidatura atravessa uma fase que exige demonstrações públicas de unidade do grupo bolsonarista.
O desconforto foi ampliado quando a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), afirmou publicamente que Michelle “poderia alçar voos altíssimos, como presidente do Brasil”, alimentando especulações sobre uma possível candidatura própria da ex-primeira-dama e dividindo o eleitorado feminino que Flávio tenta conquistar.
O Escândalo do Banco Master e o Impacto nas Pesquisas
O cenário se complicou drasticamente com a revelação, em maio de 2026, de que Flávio Bolsonaro havia pedido e recebido R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme “Dark Horse” sobre a vida de seu pai. O pedido ocorreu por meio de mensagens e áudio divulgados pelo site Intercept Brasil.
A contradição entre o discurso público e a prática privada expôs o senador. Flávio passou meses atacando publicamente o Banco Master, associando o escândalo ao governo Lula e defendendo a instauração de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o caso. Nas redes sociais, foram publicados ao menos 17 conteúdos com citações diretas ao banco em apenas três meses.
A cronologia dos fatos também desmontou a versão do senador de que desconhecia as irregularidades do banco. Dois meses antes de Flávio procurar Vorcaro, a cúpula do governo do Rio de Janeiro (também do PL) já havia sido informada de suspeitas sobre o banqueiro. Além disso, o governo do Rio, comandado por Cláudio Castro (PL), fez três aportes no Banco Master totalizando R$ 3,7 bilhões em meio ao escândalo.
O impacto eleitoral foi imediato e significativo:
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Pesquisa Datafolha (maio/2026): 46% dos eleitores rejeitam Flávio Bolsonaro, ante 45% que rejeitam Lula. A rejeição do senador cresceu em relação ao levantamento anterior (43%). A cientista política Mayra Goulart avaliou que o escândalo interrompeu a transferência automática de votos do pai para o filho: “A partir desse escândalo, ele deixa de ser uma figura vazia e passa a ser uma figura que tem sua própria rejeição”.
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Pesquisa Quaest (junho/2026): Flávio perdeu força entre evangélicos, jovens e mulheres. A queda foi maior do que o avanço de Lula, indicando perda líquida de apoio. No Sudeste, onde Flávio chegou a abrir 12 pontos de vantagem sobre Lula em abril, a tendência se inverteu para um empate técnico. No Centro-Oeste e Norte, o senador registrou queda de oito pontos. Entre os jovens de 16 a 34 anos, grupo em que Flávio mantinha vantagem, houve uma virada, com Lula assumindo a dianteira.
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Pesquisa Genial/Quaest (junho/2026): Em eventual segundo turno, Lula aparece com 44% das intenções de voto contra 38% de Flávio. O levantamento anterior da mesma empresa já indicava tendência de queda.
A Reação e os Desdobramentos
Diante da crise, Flávio adotou uma estratégia de contra-ataque. Após a operação da Polícia Federal que mirou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no âmbito das investigações do Banco Master, o senador cobrou uma CPMI para investigar o esquema, afirmando: “Escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder. CPMI do Banco Master já!”
A reação, no entanto, esbarra em sua própria participação no escândalo. Além do pedido de R61milho~esaVorcaro,veioaˋtonaqueanoradeFlaˊviorecebeu∗∗pelomenosR 11 milhões** do banco, pagos à empresa BK Financeira, de sua propriedade.
O senador também não assinou três das cinco CPIs sobre o Banco Master disponíveis para os integrantes do Senado, deixando de apoiar requerimentos de investigação. Posteriormente, manifestou arrependimento por ter assinado um dos pedidos de CPI. Apesar disso, Flávio defende publicamente a investigação como forma de “separar” as responsabilidades.
O Cenário Atual e os Desafios da Campanha
A campanha de Flávio busca reagir instalando seu QG político em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, para estreitar relações com o empresariado e com importantes cabos eleitorais, como o governador Tarcísio de Freitas. A aproximação com o mercado financeiro, no entanto, antecede a crise do Master e ganhou nova urgência após os desdobramentos recentes.
O senador também tem defendido pautas como a redução da maioridade penal e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas — temas que busca usar para mobilizar seu eleitorado mais conservador.
Conclusão
A estratégia de Flávio Bolsonaro para conquistar o eleitorado feminino enfrenta desafios em múltiplas frentes. A aposta em nomes femininos como Damares Alves e Julia Zanatta, somada à promessa de uma vice-presidente mulher, tenta construir pontes com um segmento que lhe é historicamente resistente. No entanto, a falta de um apoio explícito de Michelle Bolsonaro e, principalmente, o impacto do escândalo do Banco Master — com sua rejeição em alta, queda entre evangélicos, jovens e mulheres, e perda de vantagem em regiões estratégicas — colocam em xeque a efetividade dessa estratégia.
O senador, que até pouco tempo atrás “jogava parado”, recebendo os votos transferidos pelo pai, agora precisa construir sua própria imagem e enfrentar o escrutínio sobre suas próprias ações. Seu passado — marcado por investigações sobre “rachadinhas” em seu gabinete quando deputado estadual e pela relação com Fabrício Queiroz — soma-se ao novo escândalo, criando um acúmulo de desgastes que a campanha tenta, a cada dia, administrar.
A pergunta que fica é: será que a escolha de uma vice-presidente mulher e os acenos ao eleitorado feminino serão suficientes para superar o peso das revelações e a resistência que o senador enfrenta entre as eleitoras? O desenrolar da campanha nos próximos meses dirá se a estratégia de Flávio Bolsonaro conseguirá reverter um cenário que, até o momento, mostra-se cada vez mais desafiador.