A investigação da Polícia Federal sobre o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ganhou novos contornos nos últimos dias e reacendeu o debate sobre os limites da atuação do aparato judicial em ano eleitoral. O que era um inquérito tornaram-se dois, ambos autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ambos fortemente contestados pela defesa de Lulinha, que denuncia o que classifica como uma “fishing expedition”, expressão em inglês para uma investigação genérica, sem fatos concretos, que sai à pesca de evidências para incriminar alguém.


O que a PF investiga

Os dois inquéritos contra Lulinha foram abertos a pedido da própria Polícia Federal e não tratam diretamente dos desvios bilionários do INSS, mas sim de suposto tráfico de influência e corrupção.

Primeiro inquérito (aberto em 30/7): A PF suspeita que Lulinha tenha atuado para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em negociações com o Ministério da Saúde para a venda de medicamentos à base de canabidiol (cannabis medicinal). Segundo a investigação, Camilo Antunes tentou fechar um contrato milionário com a pasta em 2024 e 2025, contrato que, vale registrar, nunca foi assinado. A suspeita é que Lulinha teria usado sua influência para facilitar reuniões do lobista com integrantes do governo.

Segundo inquérito (aberto em 31/7): A PF quer apurar se Lulinha atuou para beneficiar empresários em contratos da Dataprev, empresa pública responsável pelas bases de dados da Previdência Social. O relatório da PF cita o empresário Cleber Ribas de Oliveira, sócio da 3Structure IT, que teria bancado ao menos uma viagem de Lulinha. A suspeita é que, em troca, ele teria recebido favores do governo. A Dataprev, no entanto, afirma não ter nenhum contrato com a empresa de Cleber.


A defesa de Lulinha: “Fishing expedition”

O advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, tem sido incisivo. Ele classifica a abertura dos inquéritos como “lamentável” e afirma que não há qualquer fato que justifique a investigação.

“A Polícia Federal segue empreendendo esforços na perspectiva de tentar interferir no processo eleitoral. É absolutamente lamentável. Não há qualquer fato que justifique a abertura de qualquer tipo de inquérito contra o Fábio Luís.”

Em entrevista à CNN, Carvalho foi ainda mais direto: “A Polícia Federal sabe que não há nada contra Fábio. Talvez esteja realizando uma fishing expedition”. A expressão, recorrente no mundo jurídico, refere-se a uma investigação que parte de suspeitas vagas e sai em busca de provas, o que, para a defesa, é uma violação dos direitos do investigado.

O advogado também criticou a estratégia da PF como uma “tentativa e erro”:“É a velha estratégia de criar um factóide. Ao que parece, a Polícia Federal está procurando uma espécie de melhor de três, não achei aqui, vou procurar ali. Isso é fishing expedition, pesca probatória, e nos remete ao que houve de pior no nosso sistema de justiça”.


O que a PF tem de concreto?

Até o momento, os elementos públicos disponíveis são frágeis:

  • Não há prova documental de que Lulinha tenha recebido qualquer vantagem indevida.

  • A Dataprev nega ter contratos com a empresa do empresário citado.

  • O contrato com o Ministério da Saúde para venda de canabidiol nunca foi assinado.

  • A PF chegou a Cleber Ribas de Oliveira por meio da investigação sobre o “Careca do INSS”, não por um vínculo direto com Lulinha.

  • A própria PF admite que a “real participação de Cleber permanece como importante lacuna investigativa”.

Em outras palavras: não há, até agora, um fato concreto e inequívoco que justifique a abertura dos inquéritos, o que torna a acusação de “pesca probatória” ao menos plausível.


A enquete do Metrópoles: o que pensa o público

Uma enquete realizada pelo Metrópoles com 1.042 leitores buscou entender o impacto político da investigação. Os resultados foram:

Impacto na reeleição de Lula Percentual
Acredita que pode prejudicar 28,7%
Não acredita em impacto negativo 71,3%

A maioria, portanto, não vê a investigação como um fator determinante para a reeleição do presidente, ainda que uma parcela significativa (quase um terço) identifique potencial de desgaste.


Tensão nos bastidores: PF x Mendonça

O caso também expôs uma queda de braço entre a Polícia Federal e o ministro André Mendonça. De um lado, Mendonça cobrava celeridade nas investigações sobre as fraudes do INSS; de outro, a cúpula da PF propôs medidas para desfazer controles impostos pelo ministro.

O embate, que já era latente, se intensificou com a entrada de Lulinha na mira. Integrantes do governo temem que a disputa pública entre os dois lados contamine o trabalho técnico da polícia e crie a impressão de que o indiciamento ou não de Lulinha será visto como vitória ou derrota de um grupo, e não como consequência de uma apuração isenta.


O que está em jogo?

A investigação sobre Lulinha ocorre em um momento eleitoral delicado. O presidente Lula, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, afirmou que não usará o cargo para proteger o filho e que ele deve provar sua inocência.

“Se o meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa. Não haverá nenhum privilégio.”

O discurso é o esperado de um chefe de Estado. Mas a questão que persiste é outra: a investigação tem lastro suficiente para existir, ou é uma “pesca probatória” em ano eleitoral?

Até o momento, os elementos públicos disponíveis sugerem que a PF partiu de suspeitas indiretas, relação de Lulinha com uma empresária amiga, que por sua vez prestou serviços ao “Careca do INSS”, para abrir dois inquéritos sem que haja um fato concreto que ligue o filho do presidente a qualquer irregularidade. A defesa sustenta que não há provas; a PF diz que há indícios a serem apurados.

O tempo e as investigações dirão se a suspeita da PF se confirmará ou se, como alega a defesa, trata-se de mais um capítulo de uma “tentativa e erro” que, no passado, já produziu graves distorções no sistema de justiça brasileiro.


Com informações de Metrópoles, G1, CNN Brasil, Folha de S.Paulo e UOL.