Um crime brutal e de uma carga emocional devastadora abalou a cidade de Itapema, na Costa Esmeralda de Santa Catarina, na noite da última sexta-feira (31). O servidor público municipal Ricardo Amaro de Lima, de 49 anos, foi assassinado dentro da própria casa, no bairro Morretes. O principal suspeito e autor da confissão é seu próprio filho adotivo, Ricardo Amaro de Lima Filho, de 18 anos, que, segundo a investigação, teria planejado o crime após anos de um ciclo de violência doméstica que vitimava a si e à sua mãe.

A Dinâmica do Crime e a Fuga

De acordo com as investigações, o filho da vítima, aprovado no vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para o curso de Engenharia Civil, não agiu sozinho. Ele combinou a morte do pai com pelo menos outros dois homens. A versão dos detidos é que o grupo teria passado o dia em uma festa na própria residência. O crime ocorreu por volta das 20h, quando Ricardo chegou em casa e foi surpreendido.

A violência foi extrema: o confronto começou com golpes de cassetete e evoluiu para facadas. Enquanto um dos comparsas imobilizava a vítima, os golpes fatais eram desferidos. Ricardo Amaro de Lima morreu no local, vítima de ferimentos por arma branca e sinais de estrangulamento.

Após o crime, os três suspeitos fugiram levando duas motocicletas pertencentes à vítima. A Polícia Militar foi acionada e, em uma ação rápida, localizou o filho e um dos comparsas. Eles foram presos em flagrante e autuados por homicídio qualificado e furto qualificado (latrocínio), já que o crime foi acompanhado de roubo. Um terceiro envolvido, Guilherme da Rosa Soares, de 20 anos, segue foragido.

O Histórico de Violência e a Motivação

A motivação para o crime, ainda sob investigação da Polícia Civil, está diretamente ligada a um histórico de violência doméstica. O filho, ao justificar o ato, afirmou aos policiais que vinha sendo ameaçado de morte pelo pai e que este teria dito que mandaria alguém atrás dele caso deixasse a casa. Ele também relatou que o planejamento do homicídio foi uma forma de “dar um fim ao conflito” que assolava a família.

Este não é um caso isolado. A violência doméstica em Santa Catarina atinge números alarmantes. Dados do estado mostram que, entre 2020 e 2025, foram registradas 436.969 ocorrências policiais de violência doméstica. O número de registros anuais saltou de 64.014 para 75.330 casos no mesmo período, um aumento de mais de 17%. O Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina (OVM) monitora esses índices, que revelam a dimensão do problema no estado.

Em âmbito nacional, o cenário também é grave. O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2025, aponta que em 2024 houve 1.067.556 acionamentos ao número de emergência 190 por violência doméstica, o que equivale a duas chamadas por minuto. Os dados sobre feminicídio também são reveladores: o Brasil registrou cerca de 1.470 casos em 2025, o maior número desde a tipificação do crime, com uma estimativa de 1.568 feminicídios, um aumento de 4,7%. A grande maioria dos agressores, 97%, são homens.

O Ciclo da Violência e a Tragédia Anunciada

O caso de Itapema é um exemplo extremo e trágico de como a violência doméstica, quando não interrompida, pode se perpetuar e escalar para níveis incontroláveis. Frequentemente, os filhos que crescem em lares violentos são vítimas diretas ou indiretas dessa agressividade, desenvolvendo traumas profundos que podem moldar suas personalidades e, em casos limites, levá-los a reproduzir ou retaliar a violência que sofreram. Neste contexto, o que se viu foi a trágica inversão de papéis: a vítima de violência tornou-se autora de um homicídio.

A Reação da Comunidade

A morte de Ricardo Amaro de Lima causou comoção em Itapema. Ele era um funcionário público concursado, atuando como pregoeiro da Prefeitura. Em nota oficial, a administração municipal lamentou a perda, destacando a “dedicação ao serviço público, pelo carinho com que tratava as pessoas e pelo comprometimento com o trabalho”. Nas redes sociais, amigos e colegas expressaram choque e tristeza. “Meu Deus, meu amigo Ricardo. Um profissional maravilhoso, competente e gentil. Que falta você fará, meu amigo”, escreveu um colega de trabalho. A comoção, no entanto, se mistura com a perplexidade diante da brutalidade do crime e da revelação do inferno doméstico que vitimava a família.


Com informações de Jornal Razão, NSC Total, ND+ e Visor Notícias.