O livro “Terras Raras no Brasil: estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026–2040”, lançado em 1º de julho de 2026 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), é um documento ambicioso. Ele não apenas mapeia o potencial brasileiro para esse mercado bilionário, mas também entrega um roteiro detalhado com soluções tecnológicas concretas e uma visão clara sobre o papel do Estado.


O Livro e seus Autores: Um Diagnóstico Profundo

A publicação é assinada por dez engenheiros, pesquisadores e professores universitários e foi apresentada no VII Seminário Brasileiro de Terras Raras (SBTR), no Rio de Janeiro.

O trabalho é dividido em três eixos principais:

  1. Estado da arte: Análise do cenário nacional e internacional, investigando as cadeias industriais para a produção dos 17 elementos químicos metálicos chamados de “terras raras”, que possuem alta condutividade térmica e elétrica.

  2. Cenários: Estudo de mercados e projeções para a exploração do recurso, considerando cooperação e capital multilateral.

  3. Mapa do caminho estratégico: Roteiro de ações para o período de 2026 a 2040, com soluções tecnológicas e de política industrial.


Soluções Tecnológicas e Industrialização: O Coração do Plano

O livro e seus autores são categóricos: o Brasil precisa deixar de ser apenas um exportador de commodities minerais e avançar na cadeia de valor. As soluções tecnológicas sugeridas giram em torno de três pilares:

1. Verticalização da Cadeia Produtiva

O diretor-presidente do CGEE, Anderson Gomes, defende que o Brasil deve formar uma indústria que fabrique componentes e equipamentos a partir da matéria-prima e os exporte com mais rentabilidade. O livro aponta que o país precisa ganhar escala e processar as terras raras internamente, em vez de exportá-las in natura.

2. Desenvolvimento Tecnológico e Inovação

A publicação está alinhada com a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2034, que define como prioridade “desenvolver tecnologias para exploração, beneficiamento e reciclagem de minerais estratégicos”. Isso inclui:

  • Beneficiamento: Técnicas para separar e purificar os elementos de terras raras, que são quimicamente semelhantes e difíceis de isolar.

  • Reciclagem: Aproveitamento de produtos descartados (como ímãs de motores elétricos) para recuperar esses metais, reduzindo a dependência de novas extrações e os impactos ambientais.

3. Formação de Mão de Obra Especializada

O livro aponta a necessidade de investir na formação técnica de recursos humanos. Como exemplo, a Universidade Federal de Pernambuco está preparando um curso de pós-graduação em rede com outras universidades para formar mão de obra e aumentar o número de pesquisadores no setor.


O Papel do Estado: Estatização ou Privatização?

Essa é a pergunta central. O livro do CGEE não defende explicitamente nem a estatização total nem a privatização completa do processo. Em vez disso, ele propõe um modelo misto com forte protagonismo estatal, mas sem excluir o capital privado.

O que o livro defende?

  • Política Industrial: O diretor-presidente do CGEE defende que o país adote uma política industrial específica para as terras raras, com financiamento de empreendimentos e investimentos em infraestrutura e tecnologia.

  • Controle da Cadeia Produtiva: O documento é explícito ao afirmar que a soberania mineral depende do controle da cadeia produtiva, e não apenas da posse das reservas. Isso significa que o Estado deve ter um papel ativo na definição dos rumos do setor.

  • Autodeterminação: Gomes afirma que o Brasil “não precisa de ninguém para dizer o que é que nós vamos fazer” , indicando uma postura de independência em relação a interesses externos.

O que o livro NÃO diz?

  • Não defende a criação de uma estatal exclusiva: Embora haja debates no governo sobre a criação de uma empresa estatal para terras raras (como a proposta da “Terrabras”), o livro do CGEE não faz essa defesa explícita. Ele fala em “financiar empreendimentos” e “política industrial”, sem especificar o modelo de gestão.

  • Não defende a privatização total: O livro não sugere a entrega do setor integralmente à iniciativa privada, como ocorreu com a Vale. Pelo contrário, ele defende a atuação do Estado como indutor e regulador.

O contexto do debate

A discussão sobre o modelo de exploração das terras raras no Brasil é polarizada:

  • Defensores de uma estatal argumentam que o Estado precisa ter controle sobre um recurso estratégico para garantir a soberania nacional e agregar valor à produção.

  • Críticos alertam que a falta de tecnologia e investimento — e não a ausência de uma estatal — é o principal entrave, e que uma estatal poderia burocratizar o setor e afastar investimentos.

O livro do CGEE parece flutuar entre esses polos, propondo um caminho pragmático: o Estado como indutor, financiador e regulador, mas sem fechar as portas para a participação privada e multilateral.


O Cenário Global e a Janela de Oportunidade

O Brasil possui cerca de um quarto das reservas mundiais de terras raras, atrás apenas da China. Enquanto isso, a China detém o monopólio do refino e da produção de ímãs permanentes, e os Estados Unidos e a Europa buscam diversificar suas cadeias de suprimento.

O livro do CGEE chega em um momento crucial, quando o Projeto de Lei 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), tramita no Senado. A expectativa é que a publicação seja aproveitada nos debates sobre o PL, fornecendo subsídios técnicos para a definição do modelo de exploração.


Conclusão: Um Roteiro, Não uma Receita

O livro “Terras Raras no Brasil” não é um manifesto ideológico. É um documento técnico que desenha caminhos, e não uma receita pronta. Ele aponta soluções tecnológicas claras — verticalização, inovação e formação de mão de obra — e defende uma política industrial ativa, com o Estado como indutor e financiador.

Sobre a questão da estatização versus privatização, o livro não toma partido. Ele deixa em aberto o modelo de gestão, focando no que realmente importa: transformar o potencial geológico do Brasil em competitividade global. A decisão sobre o modelo — estatal, privado ou misto — fica para o debate político, que agora tem um mapa confiável para se orientar.


Com informações da Agência Brasil e do CGEE.