Fome no Brasil tem queda histórica: 2 milhões deixam a insegurança alimentar grave.
Dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, apontam uma redução significativa da fome entre os grupos mais vulneráveis do Brasil entre 2022 e 2024. A queda reflete uma melhoria consistente nas condições de vida de segmentos historicamente afetados pela pobreza e pela desigualdade.
O quadro geral: Brasil no menor patamar da série histórica
Em 2024, a proporção de domicílios em insegurança alimentar grave — aquela em que a fome é uma realidade cotidiana — caiu de 4,1% para 3,2%. Em números absolutos, 2 milhões de pessoas saíram da situação de fome no intervalo de apenas um ano. Simultaneamente, 8,8 milhões de pessoas foram incluídas no patamar de segurança alimentar, que subiu de 72,4% em 2023 para 75,8% em 2024.
O ministro do MDS, Wellington Dias, comemorou o feito: “Em 2025, o Brasil celebra duas conquistas históricas: a saída do Mapa da Fome e a redução da insegurança alimentar grave ao menor nível da série histórica do IBGE”. Ele destacou ainda a velocidade da recuperação: *“Levamos dois anos para reconquistar uma marca que, no passado, levou dez anos (2003-2013) de construção de políticas públicas para ser alcançada”*.
Redução entre os grupos mais vulneráveis
O levantamento do MDS evidencia quedas expressivas da insegurança alimentar grave em diferentes recortes populacionais:
| Grupo | Redução da insegurança alimentar grave (2022–2024) |
|---|---|
| Lares chefiados por mulheres | 77,7% |
| Lares chefiados por mulheres negras | 75,5% |
| Domicílios com crianças e adolescentes (< 18 anos) | 72,4% |
| Lares chefiados por pessoas negras | 73,4% |
Esses números são particularmente significativos considerando o impacto desproporcional da pobreza e da fome nessas populações. A pesquisa do IBGE mostra que três em cada cinco lares com insegurança alimentar têm mulheres como responsáveis (59,9%), e, entre os casos de insegurança alimentar grave, a participação de domicílios com responsável pardo chega a 56,9% — mais que o dobro da parcela cujo responsável é branco (24,4%).
Queda em todas as regiões e recortes
A melhoria foi generalizada. A insegurança alimentar — considerando todos os seus níveis (leve, moderada e grave) — recuou de 27,6% para 24,2% entre 2023 e 2024, o que representa 2,2 milhões de lares a menos nessa condição. Todos os três níveis de insegurança alimentar caíram: o leve, de 18,2% para 16,4%; o moderado, de 5,3% para 4,5%; e o grave, de 4,1% para 3,2%.
A redução ocorreu em todas as regiões do país, embora persistam desigualdades regionais: o Norte (37,7%) e o Nordeste (34,8%) ainda apresentam as maiores proporções de insegurança alimentar. A insegurança alimentar também atinge mais domicílios em áreas rurais (31,3%) do que em zonas urbanas (23,2%).
Os fatores por trás da queda
A pesquisadora do IBGE Maria Lúcia Vieira aponta que a melhoria do mercado de trabalho e os programas sociais do governo federal contribuíram decisivamente para esse quadro. A insegurança alimentar moderada ou grave chegou, em 2024, ao menor nível desde 2004, quando teve início o levantamento.
A secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Burity, destacou a eficiência da estratégia adotada: “O Brasil aprendeu a enfrentar a fome. A forte redução da insegurança alimentar no primeiro ano de governo mostrou que o país construiu uma estratégia emergencial e eficiente de redução da fome. O Plano Brasil Sem Fome, lançado em 2023, consolidou essa estratégia”.
Em julho de 2025, o Brasil celebrou a saída do Mapa da Fome da Agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), com a redução do índice de prevalência de subalimentação a menos de 2,5% da população.
O que ainda precisa ser feito
Apesar dos avanços, o Brasil ainda tem 6,48 milhões de pessoas vivendo em domicílios em situação de fome. A insegurança alimentar grave afeta desproporcionalmente crianças, jovens, mulheres e domicílios pobres. Domicílios com renda per capita de até um salário mínimo representam dois em cada três (66,1%) dos lares em insegurança alimentar — proporção que sobe para 71,9% nos casos de insegurança moderada ou grave.
O grau de instrução também é um fator determinante: a parcela de domicílios em insegurança alimentar grave cujos responsáveis tinham até o ensino fundamental completo chegou a 65,7%.
Conclusão
Os dados do MDS e do IBGE confirmam uma trajetória consistente de redução da fome no Brasil, com impacto especialmente significativo sobre os grupos mais vulneráveis: mulheres, pessoas negras e crianças. A combinação de recuperação do mercado de trabalho, ampliação de programas sociais e a implementação do Plano Brasil Sem Fome produziu resultados em tempo recorde — o país levou apenas dois anos para retomar um patamar de segurança alimentar que, no passado, exigiu uma década de construção.
O desafio agora é garantir a sustentabilidade desses avanços e continuar reduzindo as desigualdades regionais, raciais e de gênero que ainda mantêm milhões de brasileiros fora do acesso pleno e regular à alimentação. Como ressaltou o ministro Wellington Dias, a fome é um problema complexo que exige soluções abrangentes e contínuas — e os números de 2024 mostram que o caminho escolhido está produzindo resultados.