A Câmara dos Deputados retoma suas votações nesta semana após quase duas semanas sem deliberações em plenário. O hiato, que se estendeu de meados de junho até o dia 30, não foi motivado por feriado, recesso ou força maior — foi mais um capítulo da paralisia que se tornou rotina no Legislativo brasileiro.
Enquanto isso, o custo de cada um dos 513 deputados federais ultrapassa R$ 625 mil por ano apenas em remuneração, sem contar as verbas acessórias que elevam esse valor para cifras estratosféricas. E a pergunta que a população se faz, legítima e incômoda, é: o que eles fazem para merecer tanto?
Dois Milhões por Mês: O Custo de uma Casa Parada
O subsídio mensal de um deputado federal é de R46.366,19∗∗[reference:1].Como13ºsalaˊrio,cadaparlamentarcusta∗∗R 602.760,47 por ano apenas em remuneração. Somados os 513 deputados, o valor chega a R$ 321 milhões por ano.
Mas isso é apenas a ponta do iceberg. Cada deputado tem direito a uma Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) de cerca de R45milmensais∗∗[reference:4]—verbautilizadaparagastosoperacionaiscomocombustıˊvel,alimentac\ca~oepassagens.Em2024,osparlamentaresgastaram∗∗R 250,7 milhões com essa cota.
Além disso, recebem R133milmensais∗∗parapagarsalaˊriosdeateˊ25secretaˊriosparlamentares[reference:6]—umcustoanualde∗∗R 672 milhões. Somam-se a isso auxílio-moradia de R$ 4.253 por mês, auxílio-viagem e outras benesses.
O custo total de cada deputado, somando salário e todas as verbas, ultrapassa R$ 2 milhões por ano. E esse dinheiro — bilhões de reais — sai do bolso do contribuinte.
A Pauta que Volta: Prioridades ou Cortina de Fumaça?
A reunião de líderes convocada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, para esta terça-feira (30) definirá os rumos da semana. Entre os temas que podem ser apreciados está o Projeto de Lei Complementar (PLP) dos Combustíveis, que autoriza o governo a usar o aumento da arrecadação com a alta do petróleo para compensar a redução de tributos sobre combustíveis.
O projeto, no entanto, já é fonte de atritos entre a relatora e o governo — mais um capítulo da novela legislativa que se arrasta enquanto os preços na bomba continuam pesando no bolso do trabalhador.
Também estão na pauta os processos disciplinares contra deputados no Conselho de Ética — uma medida que, embora necessária, parece sempre chegar atrasada e raramente resulta em punições efetivas.
O Paradoxo: Trabalham Pouco, Ganham Muito, Faltam e Justificam Depois
A Constituição determina que a sessão legislativa ocorre de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro. O recesso de julho, no entanto, só é garantido se a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) for aprovada. Caso contrário, os deputados não podem parar.
Ainda assim, a Câmara ficou quase duas semanas sem votações em plenário. Não houve recesso oficial, não houve feriado prolongado. Houve inatividade pura e simples — enquanto a população enfrenta filas nos hospitais, estradas esburacadas e uma inflação que não dá trégua.
O regimento permite que faltas sejam justificadas posteriormente, o que significa que, mesmo quando o deputado não comparece, seu salário dificilmente é descontado. A perda do mandato por faltas só ocorre se o parlamentar deixar de comparecer, sem justificativa, a um terço das sessões ordinárias — um patamar tão alto que praticamente garante a impunidade.
O que a População Prioriza — e o que a Câmara Ignora
Enquanto os deputados discutem o PLP dos Combustíveis e processos éticos que raramente vão adiante, a população brasileira clama por:
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Saúde: filas de espera por cirurgias, falta de leitos em UTIs, ausência de médicos em regiões periféricas.
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Educação: escolas sem infraestrutura, professores desvalorizados, evasão escolar crescente.
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Segurança: violência nas cidades, facções criminosas expandindo territórios, policiais sem equipamento.
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Infraestrutura: estradas esburacadas, transporte público precário, saneamento básico inexistente em milhões de lares.
Esses temas, no entanto, raramente são prioridade no plenário da Câmara. Quando são debatidos, frequentemente não saem do papel — engolidos pela burocracia, pelo corporativismo e pela troca de favores que caracteriza a política brasileira.
Conclusão: O Preço da Inércia
A retomada das votações após quase duas semanas de inatividade é apresentada pela Câmara como um gesto de “compromisso com a agenda legislativa”. A realidade, no entanto, é mais dura: os deputados trabalham pouco, ganham muito e não se preocupam com as prioridades da população.
Enquanto o Brasil enfrenta desafios urgentes, o Legislativo se arrasta em pautas que interessam mais aos próprios parlamentares do que à sociedade. O PLP dos Combustíveis pode até ser votado, mas a verdadeira questão — o custo de vida, o salário que não acompanha a inflação, a qualidade dos serviços públicos — fica para depois. Sempre para depois.
E, no fim do mês, o salário de R$ 46 mil cai na conta — independentemente do trabalho entregue.