O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), viajou a Buenos Aires neste fim de semana para semear sua visão de um futuro alinhado à direita sul-americana. Em discurso na noite de domingo (28), durante a Latin America Chairmen’s Conference — evento promovido pela Fundação Aliados de Israel e pela organização Amigos Americanos dos Acordos de Isaac —, o senador afirmou que o Brasil é a “peça que falta” no tabuleiro conservador da região.

A fala, carregada de simbolismo e dirigida a uma plateia de cerca de 20 parlamentares de diferentes países, foi além do discurso protocolar. Flávio admitiu que os brasileiros sentem “um pouco de inveja” dos vizinhos latino-americanos que, segundo ele, “um a um, escolhem a liberdade e a ordem”. E completou, com a segurança de quem já vislumbra o resultado das urnas: “Estou aqui para dizer, sem rodeios: em outubro, isso muda” .


O Mapa da Direita e a Inveja Confessada

Ao listar as vitórias conservadoras recentes na América Latina, Flávio traçou um arco que vai dos Estados Unidos de Donald Trump à Argentina de Javier Milei, passando pelo Chile de José Antonio Kast e pelo Peru de Keiko Fujimori. Em sua leitura, o continente estaria vivendo uma “onda azul” — uma referência direta à cor que simboliza os governos de direita no mapa político.

Brasil, nessa cartografia, seria a única mancha fora do eixo. A “inveja” confessada, portanto, é menos um sentimento e mais uma estratégia de contraste: enquanto os vizinhos avançam, o Brasil estaria “preso ao passado”. A pergunta que fica é: essa leitura simplifica demais a complexidade política brasileira? Ou reflete uma ansiedade legítima de parte do eleitorado que se sente órfão de um projeto conservador claro?


Críticas a Lula, Elogios a Milei e a Promessa da Embaixada

Flávio não poupou críticas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Comparou as políticas econômicas do presidente argentino, Javier Milei — que promoveu cortes no Estado e buscou equilíbrio fiscal — com o que chamou de “caminho oposto” seguido pelo Brasil.

No campo da política externa, o senador fez um aceno direto à comunidade judaica presente: prometeu que, se eleito, transferirá a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém — uma bandeira que já havia sido levantada por seu pai, Jair Bolsonaro, mas que nunca saiu do papel. Segundo Flávio, “hoje, na prática, não existe uma relação diplomática plena entre o Brasil e Israel. O Brasil está sem embaixador em Israel desde 2024”.


A Reunião com Milei: O Selo de Aprovação Conservador

Na manhã desta segunda-feira (29), Flávio cumpriu a agenda mais aguardada de sua passagem pela Argentina: um encontro com o presidente Javier Milei na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência argentina. O gesto foi registrado e amplamente repercutido nas redes sociais, funcionando como um selo de aprovação do líder argentino ao projeto político do senador.


Segurança Pública e a Polêmica das Facções

O discurso de Flávio também abordou o combate ao crime organizado, criticando a postura do governo brasileiro após os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Para o senador, enquanto outros países buscavam fortalecer ações conjuntas contra o crime, o Brasil teria seguido “no caminho contrário”.


Afinal, o que está em jogo?

A viagem de Flávio Bolsonaro à Argentina não foi um deslocamento diplomático qualquer. Foi um movimento calculado para projetar uma imagem de liderança regional, alinhada a um projeto conservador que já encontrou eco em boa parte da América Latina.

Mas será que o Brasil realmente é a “peça que falta”? A pergunta merece reflexão. A ideia de que o país pode ser enquadrado em um único bloco ideológico — e que isso traria benefícios automáticos — ignora a complexidade de sua economia, sua sociedade e seu papel geopolítico. A história recente mostra que governos de direita e de esquerda alternaram-se no poder sem que o Brasil deixasse de ser relevante no continente.

Concordo com a visão de Flávio? Não inteiramente. Acredito que o Brasil precisa, sim, de um projeto claro de desenvolvimento e de inserção internacional. Mas a ideia de que a solução está em se alinhar cegamente a um “mapa da direita” — como se a política fosse um jogo de cores em um tabuleiro — me parece uma simplificação perigosa. A realidade é mais complexa, e o eleitor brasileiro, mais exigente do que supõem os estrategistas de campanha.

O que está em jogo em outubro não é apenas a escolha entre esquerda e direita. É a definição do papel do Brasil no mundo — e, principalmente, do tipo de país que queremos ser para os brasileiros que vivem aqui, não apenas para os líderes que nos observam de fora.