O Partido dos Trabalhadores (PT) está articulando a criação da “Bancada dos Trabalhadores e Trabalhadoras” na Câmara dos Deputados, uma iniciativa que já conta com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e começa a atrair adesões de outros parlamentares, inclusive de fora da legenda. A proposta busca reorganizar a representação da classe trabalhadora no Congresso Nacional em um momento de profundas transformações no mundo do trabalho e de ascensão de bancadas temáticas com pautas conservadoras ou corporativistas.

A origem da proposta

A ideia foi idealizada por Moisés Selerges Júnior, candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo. Selerges é um trabalhador metalúrgico e ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde representou mais de 70 mil trabalhadores da região. Filho de uma faxineira e de um operário, ele construiu sua trajetória de 40 anos no chão de fábrica e na luta sindical, tendo participado de conquistas históricas para a classe trabalhadora do ABC paulista.

O lançamento oficial da pré-candidatura de Selerges ocorreu em 30 de maio de 2026, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Na ocasião, foi divulgado o Manifesto da Bancada dos Trabalhadores e Trabalhadoras, que já está disponível para assinaturas em um site próprio.

Contexto e motivação

O manifesto que embasa a iniciativa parte de uma premissa contundente: o Parlamento brasileiro não reflete a composição social do país. O documento afirma que o Brasil tem 103 milhões de pessoas que vivem da sua força de trabalho, mas, no Congresso Nacional, mais de 70% dos parlamentares são empresários e fazendeiros.

“O Parlamento, que deveria ser a casa do povo, sempre foi a sala de uma minoria. (…) Se somos a maioria, por que não estamos dentro do Congresso?”

A inversão, segundo o manifesto, não é acidental: é “resultado de séculos de concentração de poder e de um sistema que transforma dinheiro em votos e votos em leis que beneficiam os mesmos de sempre”. A proposta, portanto, não é apenas uma estratégia eleitoral, mas um retorno às origens programáticas do PT, que nasceu das greves e lutas sindicais das décadas de 1970 e 1980.

Selerges foi enfático ao justificar a necessidade da bancada: “Temos companheiros valorosos na Câmara, que lutam, mas a gente vê a dificuldade. Por que não tem uma bancada de trabalhadores? Quem produz a riqueza somos nós, que acordamos de madrugada, pegamos ônibus lotado e muitas vezes somos maltratados”.

Objetivos e pautas

A “Bancada dos Trabalhadores” tem como objetivo central criar um bloco de deputados comprometidos com a agenda trabalhista, atuando de forma coordenada para defender e propor legislações. Entre as principais pautas defendidas estão:

  • Redução da jornada de trabalho, com propostas como o fim da escala 6×1 e a redução da carga horária semanal;

  • Regulamentação do trabalho por aplicativo, garantindo direitos a entregadores e motoristas;

  • Proteção e piso salarial para o trabalho doméstico;

  • Aposentadoria digna para todos;

  • Combate à desigualdade salarial entre homens e mulheres;

  • Isenção do Imposto de Renda sobre a Participação nos Lucros e Resultados (PLR);

  • Defesa da reforma agrária e oposição à bancada ruralista.

A iniciativa também se apresenta como uma resposta à crescente precarização do trabalho e à necessidade de uma representação parlamentar mais coesa e combativa.

Apoios e adesões

Além do apoio declarado do presidente Lula, a proposta já conquistou adesões significativas. Na última semana, duas parlamentares da esquerda anunciaram seu apoio ao movimento:

  • Benedita da Silva (PT-RJ), deputada federal, figura histórica do partido e candidata ao Senado;

  • Talíria Petrone (PSol-RJ), deputada federal com atuação destacada na defesa dos direitos humanos e das minorias.

A adesão de Talíria Petrone, que não é filiada ao PT, é particularmente significativa por demonstrar a capacidade da proposta de atrair apoio para além das fronteiras do partido, unindo forças em torno da causa dos trabalhadores. O movimento também já conta com o apoio do ministro Luiz Marinho (PT) e do deputado Guilherme Boulos (PSol).

Desafios e perspectivas

O sucesso da iniciativa dependerá da capacidade dos envolvidos em superar desafios políticos e institucionais. O Congresso Nacional está cada vez mais pulverizado, com a ascensão de bancadas temáticas como a ruralista, a da segurança pública (“bancada da bala”) e a dos empresários, que frequentemente atuam em pautas contrárias aos interesses da classe trabalhadora.

Selerges tem uma meta ambiciosa: “Vamos tirar os inimigos do povo de lá e eleger gente comprometida. Criamos um site para colher assinaturas para que se monte a bancada e vamos espalhar para o país inteiro. Chega de patrão querer mandar”. A estratégia inclui não apenas a Câmara Federal, mas também as Assembleias Legislativas estaduais.

A criação da “Bancada dos Trabalhadores” é um reflexo da importância que o PT e outros partidos de esquerda dão à representação e defesa dos interesses dos trabalhadores no Brasil. Com o apoio de lideranças como Benedita da Silva e Talíria Petrone, e com o aval do presidente Lula, essa iniciativa pode se tornar um importante instrumento para a promoção de políticas públicas mais justas e equitativas no país. Resta saber se o movimento conseguirá traduzir o descontentamento da classe trabalhadora em votos e, posteriormente, em força política efetiva no Congresso.


Com informações de Metrópoles, Capital Política, Diário do Grande ABC e site oficial da Bancada dos Trabalhadores.