Com pouco mais de três meses para as eleições de 2026, o cenário político em Santa Catarina já começa a ser redesenhado. Uma leva de prefeitos e vereadores, eleitos ou reeleitos em 2024, deixará seus cargos municipais para disputar vagas no governo do estado, na Assembleia Legislativa (Alesc) e em Brasília — um movimento que, embora comum em anos eleitorais, ganha contornos estratégicos e revela as articulações e o mapa de forças para o pleito de outubro.
O Tabuleiro Estadual: Quem Sai e Para Onde Vai
Levantamento do Núcleo de Dados do Grupo ND, com base nas 20 maiores cidades de Santa Catarina, identificou cinco prefeitos que renunciaram aos cargos para disputar outros postos:
🏛️ João Rodrigues (PSD) – Chapecó → Governo do Estado
Ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues larga o comando do segundo maior colégio eleitoral do estado para disputar o governo catarinense. Sua candidatura coloca o PSD como uma terceira via no pleito estadual, em um cenário polarizado entre a direita bolsonarista e a esquerda.
🤝 Adriano Silva (Novo) – Joinville → Vice-Governador (chapa com Jorginho Mello)
O prefeito da maior cidade de Santa Catarina aceitou o convite do governador Jorginho Mello (PL) para compor sua chapa à reeleição como vice. A aliança entre PL e Novo, costurada diretamente por Jorginho, busca consolidar a direita catarinense e ampliar o arco de alianças sem abrir mão de bandeiras comuns como gestão e responsabilidade fiscal. Adriano Silva justificou a decisão como uma “união da direita”, enfatizando o alinhamento programático com o governador. O movimento, no entanto, não é isento de ruídos: a aliança entre PL e Novo em Santa Catarina contrasta com a crise nacional entre as duas siglas e expõe fissuras no campo conservador.
🗳️ Edilson Massocco (PL) – Concórdia → Deputado Estadual
Nome de destaque do PL no Oeste catarinense, Edilson Massocco renunciou ao cargo em março para disputar uma vaga na Alesc. Sua trajetória inclui passagens pela Câmara de Vereadores de Concórdia, como vice-prefeito e como deputado estadual eleito em 2022, cargo que deixou para concorrer à prefeitura em 2024. Considerado uma das principais lideranças do partido no Alto Uruguai, sua candidatura reforça a presença bolsonarista no legislativo estadual.
🗳️ Liba Fronza (PSD) – Navegantes → Deputado Estadual
Reeleito com expressivos 82% dos votos em 2024, Liba Fronza deixou a prefeitura de Navegantes em abril para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa. Seu discurso de campanha tem sido pragmático: ele argumenta que os principais desafios de Navegantes e da região — como mobilidade urbana (BR-101, BR-470 e a travessia do Ferry-Boat) e atendimento na saúde — não podem mais ser resolvidos por um prefeito, exigindo representação na esfera estadual.
🗳️ Salmir da Silva (MDB) – Biguaçu → Deputado Estadual
O ex-prefeito de Biguaçu, reeleito com mais de 70% dos votos, também abriu mão do cargo para disputar uma cadeira na Alesc. Sua campanha tem intensificado a agenda no interior do estado, buscando consolidar seu nome como uma liderança do MDB no legislativo estadual.
A Dança das Cadeiras nos Legislativos Municipais
Além dos prefeitos, 31 vereadores — de um universo de 317 — já confirmaram pré-candidaturas a outros cargos. A maioria busca migrar para a Alesc ou para a Câmara dos Deputados em Brasília. A exceção é o vereador Afrânio Boppré (PSOL), de Florianópolis, único que almeja uma vaga no Senado.
Distribuição por Cidade
A capital, Florianópolis, lidera o movimento com seis vereadores pré-candidatos, seguida por Joinville com cinco. Na outra ponta, sete das 20 maiores cidades — Palhoça, Criciúma, Lages, Tubarão, Navegantes, São Bento do Sul e Biguaçu — ainda não emplacaram nenhum vereador na disputa.
Alguns nomes já confirmados:
| Vereador | Cidade | Partido | Cargo almejado |
|---|---|---|---|
| Adilson Girardi | Joinville | MDB | Deputado Estadual |
| Afrânio Boppré | Florianópolis | PSOL | Senador |
| André Guesser | São José | PDT | Deputado Estadual |
| Anna Carolina | Itajaí | Republicanos | Deputada Estadual |
| Brandel Junior | … | … | … |
(A lista completa com os 31 nomes está disponível na reportagem original do ND Mais.)
Contexto Nacional e a Regra da Desincompatibilização
O movimento em Santa Catarina não é um fenômeno isolado. Em todo o país, 11 governadores e 10 prefeitos de capitais renunciaram aos cargos para disputar outros postos nas eleições de 2026. Entre os governadores, dois são pré-candidatos à Presidência (Romeu Zema e Ronaldo Caiado), enquanto a maioria disputa o Senado.
A renúncia é exigida pela lei eleitoral (desincompatibilização), com prazo final em 4 de abril. O objetivo é evitar o uso da máquina pública em favor das candidaturas. A saída do cargo, no entanto, não confirma automaticamente a candidatura — a oficialização só ocorrerá em agosto, após as convenções partidárias e o registro no TSE.
O Tabuleiro para o Senado e as Articulações de Bastidores
Além da chapa majoritária, Jorginho Mello também avança na montagem do tabuleiro para o Senado. A tendência é que ele apoie a deputada federal Carol De Toni (PL-SC) na disputa por uma das duas vagas, ao lado de Carlos Bolsonaro (PL-RJ), que articula domicílio eleitoral em Santa Catarina. A movimentação redesenha a correlação de forças no campo bolsonarista catarinense e deve ser alinhada com o senador Esperidião Amin (PP-SC) nos próximos dias.
Impactos e Implicações
A movimentação dos prefeitos e vereadores não é apenas uma troca de cadeiras. Ela revela:
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O reposicionamento das lideranças locais em direção a esferas mais altas de poder, num movimento natural de ascensão política.
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A força do bolsonarismo em Santa Catarina, com Jorginho Mello (PL) articulando uma chapa que une PL e Novo, além de lançar nomes fortes para o Senado.
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A fragmentação e recomposição das forças no legislativo estadual, com a chegada de novos deputados e a saída de outros que migraram para o executivo ou para Brasília.
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A exposição de tensões nacionais no cenário local, como a aliança PL-Novo em Santa Catarina em meio à crise entre as duas siglas em nível nacional.
Conclusão
Faltando pouco mais de três meses para o pleito, Santa Catarina já vive um intenso movimento de renovação e rearranjo de suas lideranças políticas. A renúncia de cinco prefeitos e a pré-candidatura de 31 vereadores das maiores cidades do estado são mais do que números: são o retrato de um tabuleiro em ebulição, onde alianças são costuradas, projetos pessoais ganham forma e o mapa de forças para 2026 começa a ser desenhado.
O desafio agora é observar como esses movimentos impactarão a correlação de forças na Alesc, na bancada catarinense em Brasília e, principalmente, na disputa pelo governo do estado — onde a chapa Jorginho Mello-Adriano Silva busca consolidar a continuidade do projeto bolsonarista, enquanto a oposição tenta construir uma alternativa viável.
Uma coisa é certa: as eleições de 2026 em Santa Catarina prometem ser competitivas, dinâmicas e cheias de reviravoltas. E a movimentação dos líderes locais é apenas o primeiro capítulo dessa história.