As propagandas de casas de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo de 2026 reacenderam o debate sobre os impactos das bets na saúde mental, especialmente quando veículos de comunicação passam a estimular diretamente o público a apostar por meio da divulgação de odds em tempo real, ampliando os riscos para além do impacto financeiro.

Nas primeiras rodadas da Copa, narradores e comentaristas da CazéTV passaram a sugerir apostas durante as partidas, apresentando odds e incentivando os espectadores a participar. Em 61% dos casos, as previsões terminaram em prejuízo para quem seguiu as recomendações. O programa Jogo Aberto, da Band, adotou estratégia semelhante.

Investigação e regulamentação

Na última quinta-feira (25), a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, incluiu a CazéTV em uma investigação para apurar possíveis irregularidades na publicidade de apostas esportivas de quota fixa.

Para entender os efeitos desse tipo de exposição, o ICL Notícias conversou com o psiquiatra Lucas Spanemberg, pesquisador do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Segundo o especialista, o incentivo às apostas durante transmissões esportivas pode influenciar não apenas quem já aposta, mas também pessoas que jamais tiveram contato com esse tipo de atividade.

“O impacto é muito grande. E não apenas sobre quem já aposta, mas também sobre pessoas que nunca haviam apostado”, afirma. “Quando esse tipo de sugestão acontece durante uma transmissão de enorme audiência, como uma Copa do Mundo, existe um forte potencial de indução ao comportamento. Nosso cérebro utiliza atalhos cognitivos. Quando se associa um momento de lazer e entretenimento à promessa de ganho financeiro imediato, reduz-se a percepção do risco. Isso pode estimular pessoas que jamais apostariam a experimentar esse comportamento”.

Dependência e saúde mental

Segundo o especialista, as apostas esportivas funcionam de forma semelhante às adições comportamentais, ativando o circuito de recompensa do cérebro e produzindo uma resposta química e uma experiência momentânea de prazer. Pessoas mais vulneráveis tendem a ser mais suscetíveis a esse processo.

“O problema é que ninguém sabe exatamente qual é o seu risco individual. Hoje vemos propagandas de casas de apostas praticamente em todos os campeonatos, transmissões esportivas e redes sociais. Qual o impacto dessa exposição constante? É total. Talvez essa seja uma das questões mais importantes em termos de políticas públicas e saúde pública”.

Com informações de ICL Notícias. Fonte original.