A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Santa Catarina, na última sexta-feira (26), terminou em um novo capítulo da guerra pública entre o Planalto e o Palácio Barriga Verde. Mais do que um simples desentendimento político, o episódio expôs uma relação institucional rompida, marcada por ausências sistemáticas do governador Jorginho Mello (PL) em eventos do governo federal e por um embate sobre a veracidade e a destinação de bilhões em investimentos.

O que está em jogo não é apenas a troca de farpas entre dois líderes. É a paralisia da cooperação federativa em um estado que, ao mesmo tempo em que recebe volumosos recursos da União, vê seu governador se recusar a participar das cerimônias que os anunciam.


O Estopim: “Síndrome de Grandeza” e “Hegemonia da Ignorância”

Durante evento em Itajaí para o lançamento de uma fragata da Marinha e a visita a obras da Petrobras, Lula dirigiu críticas contundentes a Santa Catarina. O presidente afirmou que o estado não pode ser tomado pela “síndrome de grandeza” só porque é rico, e classificou a suposta supremacia regional ou de cor como a “hegemonia da ignorância” , comparando-a aos ideais do nazista Adolf Hitler.

O presidente também defendeu a igualdade de tratamento entre diferentes raças e regiões, afirmando que “não tem isso de o branco é melhor do que o negro, ou o nordestino é pior do que qualquer um do Sul do país”.

Em seguida, desafiou os governadores catarinenses a compararem suas entregas com as de sua gestão: “Sou pernambucano, sou nordestino, mas duvido que algum governador catarinense fez por Santa Catarina o que eu fiz como presidente da República. Pode comparar” .


As Ausências do Governador: Um Padrão que se Repete

O principal alvo das críticas de Lula, no entanto, não foi o povo catarinense, mas o governador Jorginho Mello, que não compareceu ao evento em Itajaí. A ausência, segundo o presidente, não foi isolada:

“Ele simplesmente não participou, para não fazer parceria com o governo federal. Qual é o tamanho da cabeça desse cidadão, qual é a qualidade da massa encefálica que ele tem na cabeça? É de se pesquisar, porque um ser humano não pode ser pequeno a ponto de não privilegiar os interesses do povo de Santa Catarina” .

Lula também ironizou: “o governador, que eu não sei nem o nome dele, nunca teve coragem de comparecer. Nunca teve coragem de comparecer. Todos são convidados” .

O histórico de ausências de Jorginho Mello em eventos com Lula é extenso:

  • Março de 2026: Mello não acompanhou a visita presidencial para assinatura do contrato de financiamento de um estaleiro em Itajaí.

  • 2024: Na primeira visita de Lula ao estado em 20 meses, a ausência do governador também se repetiu.

A justificativa do governador, à época, foi de que só compareceria a eventos com anúncios federais relevantes para a população catarinense. No entanto, mesmo quando há anúncios bilionários, como os feitos agora, a ausência se mantém.


Os Investimentos Federais: R$ 24 Bilhões em Obras e a Controvérsia

Durante a agenda em Santa Catarina, Lula anunciou um pacote robusto de investimentos para o estado:

  • Novo PAC: R$ 5,9 bilhões em obras de melhorias em rodovias.

  • Concessões rodoviárias: Leilão de três lotes nas BRs 470, 280 e 282, totalizando R$ 24 bilhões em investimentos.

  • Porto de Itajaí: Concessão de R311milho~esparaocanaldeItajaıˊeinvestimentospuˊblicoseprivadosdaordemdeR 250 milhões já realizados.

  • Morro dos Cavalos: Solução para um dos maiores gargalos logísticos de Santa Catarina.

Em entrevista exclusiva ao ND Mais, Lula afirmou que Santa Catarina “está recebendo investimentos federais como há muito tempo não recebia” .

No entanto, o governador Jorginho Mello contestou veementemente os números e a narrativa do governo federal. Em Chapecó, onde participava da entrega de obras no Hospital Regional do Oeste, Mello afirmou que Lula “mentiu de novo” ao afirmar que o governo federal teria disponibilizado R$ 24 bilhões para obras em Santa Catarina.

“Eles não fazem um túnel, que é R15bilho~es,laˊnoMorrodosCavalos,eve^mmentirquedisponibilizaramR 24 bilhões. Isso é conversa para boi dormir” .

Mello também questionou a proposta de concessões rodoviárias, afirmando que envolvem a cobrança de pedágios em trechos estaduais integrados às rodovias federais: “Eu renovei as estradas, eu não quero que o povo pague pedágio” .


O Embate das Narrativas

As reclamações de ambos os lados revelam um abismo de interpretação:

A visão do governo federal

  • Lula critica a ausência do governador em eventos que anunciam investimentos para o estado, classificando a postura como “pequena” e prejudicial aos interesses da população.

  • O governo federal afirma que tentou fechar parceria com o estado para o projeto de infraestrutura de R$ 24 bilhões, mas que Mello “não participou para não fazer parceria com o governo federal” .

  • O ministro dos Transportes reforçou que a carteira de leilões e concessões em estudo para Santa Catarina soma mais de R$ 24 bilhões.

A visão do governo estadual

  • Jorginho Mello alega que Lula “não entrega nada” em suas visitas ao estado e “só vem para falar mal da gente”.

  • O governador nega que tenha recusado investimentos“Nunca nos ofereceram esse investimento. O que o ministro está falando é o projeto de concessão para pedagiar nossas estradas estaduais” .

  • Mello afirma que priorizou a recuperação da malha viária catarinense sem recorrer a pedágios e que pretende encerrar o ano com todas as rodovias estaduais revitalizadas.

  • O governador descartou um encontro com Lula“Eu não fui me encontrar com ele. Não vou porque ele nunca ajudou Santa Catarina” .


O Impacto Político e a Guerra Institucional

A troca de acusações entre Lula e Jorginho Mello transcende o campo da política partidária e atinge o coração da governança colaborativa. Enquanto o presidente da República anuncia investimentos bilionários em solo catarinense, o governador do estado não apenas se ausenta das cerimônias como também contesta publicamente a veracidade dos anúncios.

A tensão é agravada pelo calendário eleitoral. Jorginho Mello é pré-candidato à reeleição e é um dos governadores mais críticos de Lula, em uma região onde o petista sofre alta rejeição. A guerra pública serve a ambos os lados: para Lula, é uma oportunidade de expor o que considera “boicote” ao desenvolvimento do estado; para Mello, é uma chance de se colocar como opositor ferrenho a um governo federal impopular entre seus eleitores.


Conclusão

A relação entre o governo federal e o governo de Santa Catarina chegou a um ponto de ruptura. De um lado, Lula anuncia investimentos que, segundo ele, o estado “não recebia há muito tempo”. Do outro, Jorginho Mello se recusa a participar dos eventos, contesta os números e alega que o presidente “mente” e “não entrega nada”.

A verdade, como sempre, parece estar em algum lugar no meio. Os R$ 24 bilhões mencionados por Lula são, de fato, projetos de concessão — ou seja, investimentos privados em rodovias federais, não repasses diretos ao estado. Mas também é fato que o governo federal tem aplicado recursos significativos em Santa Catarina, com o Novo PAC, a retomada do Porto de Itajaí e as obras nas BRs.

O que fica claro é que, independentemente dos números, a cooperação federativa foi sacrificada no altar da polarização política. E quem perde com isso é a população catarinense, que fica refém de uma guerra de narrativas enquanto as obras e os investimentos — reais ou prometidos — aguardam um entendimento que parece cada vez mais distante.