A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina, na última sexta-feira (26), terminou em um novo capítulo da guerra declarada entre o Planalto e o Palácio Barriga Verde. Mais do que um simples desentendimento político, o episódio expôs uma relação institucional rompida, marcada por ausências sistemáticas do governador Jorginho Mello (PL) em eventos do governo federal — e por um embate sobre a veracidade e a destinação de bilhões em investimentos.

O que está em jogo não é apenas a troca de farpas entre dois líderes. É a paralisia da cooperação federativa em um estado que, ao mesmo tempo em que recebe volumosos recursos da União, vê seu governador se recusar a participar das cerimônias que os anunciam.


O Estopim: “Hegemonia Branca”, “Síndrome de Grandeza” e a Menção a Hitler

Durante evento em Itajaí para o lançamento de uma fragata da Marinha e a visita a obras da Petrobras, Lula dirigiu críticas contundentes a Santa Catarina. O presidente afirmou que o estado não pode ser tomado pela “síndrome de grandeza” só porque é rico, e classificou a suposta supremacia regional ou de cor como a “hegemonia da ignorância” , comparando-a aos ideais do nazista Adolf Hitler.

O presidente também defendeu a igualdade de tratamento entre diferentes raças e regiões, afirmando que “não tem isso de o branco é melhor do que o negro, ou o nordestino é pior do que qualquer um do Sul do país” . Em seguida, desafiou os governadores catarinenses a compararem suas entregas com as de sua gestão: “Sou pernambucano, sou nordestino, mas duvido que algum governador catarinense fez por Santa Catarina o que eu fiz como presidente da República. Pode comparar” .


A Reação do Governador: “Criminoso, Preconceituoso”

O principal alvo das críticas de Lula foi o governador Jorginho Mello, que não compareceu ao evento em Itajaí — repetindo um padrão de ausências que já havia ocorrido em março de 2026 e em 2024. Lula ironizou: “o governador, que eu não sei nem o nome dele, nunca teve coragem de comparecer” .

A reação de Jorginho Mello foi imediata e contundente. O governador decidiu acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Lula, acusando-o de xenofobia e de ter cometido um crime discriminatório. Em vídeo publicado nas redes sociais, Mello afirmou: “Uma coisa é o presidente me criticar ou vir a Santa Catarina dizer coisas que não condizem com a realidade. Isso faz parte do debate político e nós respondemos com fatos. Outra coisa, muito diferente, é chamar o povo catarinense de racista. Isso é criminoso, preconceituoso e ele precisa responder por isso” .

O governador também rebateu a afirmação de Lula de que o estado teria recusado um investimento de R$ 24 bilhões em parceria com o governo federal. Segundo Mello, “nunca nos ofereceram esse investimento. O que o ministro está falando é o projeto de concessão para pedagiar nossas estradas estaduais” .


A Reação da Bancada Catarinense: Deputadas e Senador em Pé de Guerra

As declarações de Lula provocaram uma forte reação da bancada catarinense, especialmente entre os parlamentares alinhados ao bolsonarismo.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — pré-candidato à Presidência

O senador e pré-candidato à Presidência manifestou solidariedade aos catarinenses: “Minha solidariedade aos irmãos catarinenses após a agressão de Lula” . Flávio compartilhou o vídeo de Jorginho Mello rebatendo as acusações sobre os R$ 24 bilhões e amplificou a narrativa de que o presidente teria ofendido o povo catarinense.

Histórico de oposição ao governo Lula: Flávio Bolsonaro é um dos principais opositores do governo Lula no Senado. Sua pré-campanha à Presidência tem sido marcada por críticas contundentes ao governo federal, com ataques diretos a Lula em diversas ocasiões, incluindo a acusação de que o presidente “parece ser o chefe do PCC” .

Deputada Federal Carol De Toni (PL-SC)

A deputada Carol De Toni afirmou que Lula tentava criar uma narrativa falsa ao falar que há uma “síndrome de grandeza” em algumas pessoas de Santa Catarina. Em suas palavras: “Presidente, quem demonstra síndrome de grandeza é quem acredita que pode criar uma narrativa falsa” .

Histórico de oposição ao governo Lula: Carol De Toni é uma das parlamentares mais críticas ao governo Lula. Desde fevereiro de 2023, votou contra a orientação do governo em 72% das vezes, segundo o Radar do Congresso. A deputada também é conhecida por sua defesa intransigente das pautas bolsonaristas e por sua atuação como presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, onde já articulou pautas contrárias ao governo.

Deputada Estadual Julia Zanatta (PL-SC)

Julia Zanatta também comentou as falas de Lula e afirmou que ele repetia discursos que a esquerda utilizaria para associar o povo catarinense ao nazismo e fascismo“Nós só queremos ter o orgulho de ser catarinense” , disse a deputada. Ela repudiou o conteúdo das declarações e afirmou que o presidente “vomitou preconceitos” .

Histórico de oposição ao governo Lula: Julia Zanatta tem sido uma voz ativa contra o governo federal, criticando o avanço da “pauta abortista” no governo Lula e questionando as despesas com viagens e comitivas presidenciais. Em 2025, criticou a falta de transparência nas respostas de diferentes ministérios do governo Lula.


O Embate das Narrativas e as Ausências Recorrentes

As reclamações de ambos os lados revelam um abismo de interpretação e um histórico de desencontros que remonta a 2024.

A visão do governo federal

Lula critica a ausência do governador em eventos que anunciam investimentos para o estado, classificando a postura como “pequena” e prejudicial aos interesses da população. O presidente afirmou que o governo federal tentou fechar parceria com o estado para o projeto de infraestrutura de R$ 24 bilhões, mas que Mello “não participou para não fazer parceria com o governo federal” .

A visão do governo estadual

Jorginho Mello alega que Lula “não entrega nada” em suas visitas ao estado e “só vem para falar mal da gente” . O governador nega que tenha recusado investimentos: “Nunca nos ofereceram esse investimento” . Ele afirma que priorizou a recuperação da malha viária catarinense sem recorrer a pedágios e que pretende encerrar o ano com todas as rodovias estaduais revitalizadas.

O padrão de ausências

Esta não é a primeira vez que Jorginho Mello se ausenta de um evento com Lula. Em março de 2026, o governador não acompanhou a visita presidencial para assinatura do contrato de financiamento de um estaleiro em Itajaí. Em 2024, na primeira visita de Lula ao estado em 20 meses, a ausência também se repetiu. À época, a justificativa foi de que só compareceria a eventos com anúncios federais relevantes.


O Impacto Político e a Guerra Institucional

A troca de acusações entre Lula e os parlamentares catarinenses transcende o campo da política partidária e atinge o coração da governança colaborativa. Enquanto o presidente da República anuncia investimentos bilionários em solo catarinense, o governador do estado não apenas se ausenta das cerimônias como também contesta publicamente a veracidade dos anúncios — e é apoiado por uma bancada que faz da oposição ao governo federal sua principal bandeira.

A tensão é agravada pelo calendário eleitoral. Jorginho Mello é pré-candidato à reeleição e é um dos governadores mais críticos de Lula, em uma região onde o petista sofre alta rejeição. A guerra pública serve a ambos os lados: para Lula, é uma oportunidade de expor o que considera “boicote” ao desenvolvimento do estado; para Mello e sua bancada, é uma chance de se colocar como oposição ferrenha a um governo federal impopular entre seus eleitores.


Conclusão: O Preço da Polarização

A relação entre o governo federal e a bancada catarinense — especialmente seus nomes mais alinhados ao bolsonarismo — chegou a um ponto de ruptura. De um lado, Lula anuncia investimentos que, segundo ele, o estado “não recebia há muito tempo” . Do outro, o governador e os parlamentares da oposição se recusam a participar dos eventos, contestam os números e acusam o presidente de ofender o povo catarinense.

A verdade, como sempre, parece estar em algum lugar no meio. Os R$ 24 bilhões mencionados por Lula são, de fato, projetos de concessão — ou seja, investimentos privados em rodovias federais, não repasses diretos ao estado. Mas também é fato que o governo federal tem aplicado recursos significativos em Santa Catarina, com o Novo PAC, a retomada do Porto de Itajaí e as obras nas BRs.

O que fica claro é que, independentemente dos números, a cooperação federativa foi sacrificada no altar da polarização política. E quem perde com isso é a população catarinense, que fica refém de uma guerra de narrativas enquanto as obras e os investimentos — reais ou prometidos — aguardam um entendimento que parece cada vez mais distante.