A decisão do Banco Central (BC) de reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano, em 17 de junho, reacendeu um debate que vai muito além dos juros: por que a taxa continua tão elevada mesmo com a economia brasileira apresentando resiliência e ampliando seus mercados internacionais?
A resposta está em um dilema estrutural que envolve inflação persistente, dívida pública indexada à Selic e a necessidade de equilibrar o crescimento econômico com o controle de preços. Entender esse cenário exige mergulhar nos mecanismos que conectam a política monetária, a gestão da dívida e as escolhas fiscais do governo.
O que diz a ata do Copom?
Na ata divulgada em 23 de junho, o Copom reafirmou que a magnitude do ciclo de calibração da Selic será ajustada à luz da evolução do cenário, considerando o contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços.
O colegiado prevê alta de 5,2% para o IPCA em 2026 — acima do teto da meta de 4,5% — e de 3,7% em 2027 — acima do centro da meta de 3,0%. O documento menciona explicitamente a desancoragem das expectativas de inflação, indicando que agentes econômicos continuam projetando inflação acima do objetivo estabelecido. Além disso, a guerra no Oriente Médio, a alta do petróleo e os impactos climáticos do fenômeno El Niño seguem pressionando os preços.
O Copom também avaliou que trajetórias da Selic menos discrepantes das apontadas pelo mercado são “mais adequadas”, por evitarem induzir volatilidade excessiva nos ativos financeiros. E reafirmou “serenidade e cautela na condução da política monetária”, de forma que os passos futuros possam incorporar novas informações sobre os efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre o nível de preços.
Por que a Selic segue alta mesmo com o país “indo bem”?
O paradoxo é aparente. O que parece “bom desempenho” — atividade econômica aquecida, mercado de trabalho resistente e desemprego em patamares historicamente baixos — é, na verdade, um dos fatores que pressiona a inflação para cima.
A economia brasileira operando perto do limite de sua capacidade gera demanda aquecida, que, combinada com choques externos (petróleo, conflitos geopolíticos) e climáticos (El Niño), mantém a inflação acima do teto da meta. O FMI reconheceu que o Brasil tem mostrado “resiliência notável diante de múltiplos choques”, com crescimento que deve se recuperar em 2026 e se fortalecer, chegando a cerca de 2,5% no médio prazo. No entanto, a inflação, que havia caído até o início de 2026, voltou a subir como reflexo da alta dos preços globais de energia.
A Selic, portanto, não é alta apesar do bom desempenho — é alta por causa dele. O BC precisa conter o excesso de demanda para que a inflação não se espalhe por toda a economia.
A Selic e a dívida pública: um elo direto e perigoso
A relação entre a Selic e a dívida pública é direta e mensurável. Quase metade da dívida pública federal é indexada à taxa Selic.
Em abril de 2026, a Dívida Pública Federal (DPF) atingiu **R8,798trilho~es∗∗,altade1,91 201,09 bilhões em títulos, volume recorde para todos os meses da série histórica. A apropriação de juros — o reconhecimento mensal da correção dos juros que incidem sobre os títulos — adicionou R$ 92,54 bilhões à dívida apenas em abril.
De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF) 2026, a DPF deve encerrar o ano entre R9,7trilho~eseR 10,3 trilhões. A dívida bruta do Brasil já está em 80,4% do PIB — o equivalente a mais de R$ 10 trilhões. O FMI projeta que o endividamento bruto chegue a 96,5% do PIB em 2026 e continue subindo nos próximos anos.
Existe outro índice para ancorar a dívida?
Sim, e o Tesouro Nacional já trabalha nessa direção. O Plano Anual de Financiamento (PAF) 2026 estabelece como diretriz central o aumento da participação de títulos prefixados e indexados ao IPCA, com alongamento dos prazos de vencimento.
A meta para 2026 é que os títulos vinculados à Selic fiquem entre 46% e 50% da dívida (atualmente em 48,3%), enquanto os títulos corrigidos pela inflação fiquem entre 23% e 27% e os prefixados entre 21% e 25%.
O problema é que, em momentos de incerteza, os investidores fogem de títulos prefixados e atrelados à inflação e compram maciçamente títulos atrelados à Selic, que são mais seguros. Em abril, 69,7% das novas emissões do Tesouro foram em títulos vinculados à Selic. O governo está, na prática, refém da demanda do mercado.
Não há um “interruptor” que resolva o problema de imediato. A transição para uma dívida mais longa e menos indexada à Selic é gradual e depende da confiança do mercado e da estabilidade econômica.
As medidas do governo: o que está sendo feito?
Diante desse cenário desafiador, o governo tem adotado um conjunto de medidas que, embora não produzam resultados imediatos, representam as melhores práticas possíveis para o cenário atual — um diagnóstico que encontra eco em instituições como o FMI e o BID.
1. Ajuste fiscal e superávit primário
O Governo Central registrou **superávit primário de R25,2bilho~esemabrilde2026∗∗,acimadosR 18,2 bilhões do mesmo mês do ano anterior e acima da mediana das projeções do mercado. A arrecadação total cresceu 6% em termos reais, impulsionada pelo Imposto de Renda e pela Cofins.
A meta fiscal para 2026 prevê superávit primário de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,9 bilhões. O FMI reconheceu os “esforços das autoridades para fortalecer a posição fiscal” e recomendou que esses esforços continuem.
2. Gestão ativa da dívida
O Tesouro Nacional vem executando o PAF 2026, com foco no alongamento do perfil da dívida e na redução gradual da exposição à Selic. O plano prevê a emissão de novos títulos com prazos mais longos e a diversificação do financiamento, incluindo a captação recorde de 5 bilhões de euros em emissão internacional.
3. Reformas estruturais
O FMI destacou que as “reformas estruturais e a agenda de transformação ecológica estão avançando e promoverão um crescimento mais forte e inclusivo no médio prazo”. O governo tem priorizado iniciativas para modernizar o sistema tributário, fortalecer a responsabilidade fiscal e aprimorar marcos legais.
O caminho adotado: por que é a melhor prática possível?
O FMI foi enfático em sua avaliação: “reformas fiscais significativas serão necessárias para reduzir a dívida pública”, e recomendou poupar receitas extraordinárias relacionadas ao petróleo, mobilizar receitas e enfrentar a rigidez nos gastos — exatamente a direção que o governo vem seguindo.
O BID, por sua vez, sugere que os países da América Latina reduzam a dívida pública para uma faixa de 46% a 55% do PIB, um horizonte que o Brasil busca alcançar por meio do ajuste fiscal gradual e do crescimento econômico.
O Banco Central, por seu turno, corretamente reduziu as taxas de juros em março e abril, em consonância com o regime de metas de inflação do país, segundo o FMI. E o Copom tem mantido a flexibilidade da política monetária diante da elevada incerteza.
Conclusão
O cenário econômico brasileiro é desafiador, mas o governo tem adotado as melhores práticas possíveis diante das circunstâncias:
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No campo fiscal: geração de superávits primários consistentes, com arrecadação em alta e controle das despesas, dentro de uma meta fiscal realista.
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Na gestão da dívida: execução do PAF 2026 para alongar o perfil da dívida e reduzir gradualmente a exposição à Selic, mesmo diante da demanda do mercado por títulos atrelados à taxa básica.
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Na política monetária: o BC tem agido com serenidade e cautela, cortando os juros de forma gradual e sustentável, sem comprometer o controle da inflação — exatamente o que recomenda a melhor literatura econômica.
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Nas reformas estruturais: avanço na agenda de transformação ecológica, modernização tributária e melhoria do ambiente de negócios, reconhecidas pelo FMI como promotoras de crescimento mais forte e inclusivo.
Não há atalhos. A Selic alta é uma consequência da inflação pressionada por fatores externos e domésticos, e a dívida pública segue refém da indexação à taxa básica. Mas o caminho escolhido — ajuste fiscal gradual, gestão ativa da dívida, reformas estruturais e política monetária cautelosa — é o único que pode quebrar o ciclo vicioso de juros altos, dívida crescente e baixo crescimento.
O Brasil tem mostrado resiliência notável diante de múltiplos choques. Com a continuidade dessas políticas, a economia poderá gradualmente convergir para um cenário de juros mais baixos, dívida controlada e crescimento sustentável — um horizonte que, embora distante, é a direção correta apontada pelas melhores práticas econômicas e pelas instituições internacionais que acompanham o país.