A Polícia Federal deflagrou na última terça-feira (14) a Operação Estoque Zero, uma ação cirúrgica que expôs as entranhas de um esquema criminoso de descaminho e lavagem de dinheiro com ramificações em Santa Catarina. Com mandados cumpridos em oito endereços residenciais e comerciais nas cidades de Lages e São José do Cerrito, a operação revelou um modelo de negócio que, à primeira vista, parecia comércio legítimo — mas que escondia uma engrenagem milionária de sonegação fiscal, fraude documental e ocultação de patrimônio.
O modus operandi: compras no exterior, revenda sem nota e uma cortina de laranjas
A investigação da PF, que corre em sigilo sob o número 5013413-06.2026.4.04.7203/SC, apontou que o grupo atuava em duas frentes complementares:
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Aquisição internacional sem lastro fiscal: mercadorias eletrônicas — como smartphones, notebooks, tablets e periféricos de alto valor — eram importadas de forma irregular, sem o pagamento dos tributos devidos e sem a documentação aduaneira exigida. A entrada desses produtos no país ocorria por vias não oficiais, muitas vezes camuflada como “bagagem” ou “amostras”, ou ainda por meio de triangulações com países vizinhos de menor controle alfandegário.
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Revenda com cobertura fiscal irrisória: os produtos eram então repassados a lojas físicas e virtuais da região, mas menos de 3% do volume de vendas apurado possuía nota fiscal. Isso significa que, para cada R100milemmercadoriasvendidas,apenasR 3 mil tinham lastro documental. O restante circulava na informalidade total, sem ICMS, sem ISS, sem PIS/Cofins — um rombo estimado em mais de R$ 8 milhões em impostos sonegados apenas no último exercício.
O nome “Estoque Zero” não é casual: a PF suspeita que os investigados operavam com reposição constante e controlada, mantendo os estoques físicos baixos para dificultar a fiscalização, mas com giro financeiro elevado — uma espécie de “just-in-time” do crime.
Lavagem de dinheiro: a arte de pulverizar o rastro
O que torna o esquema particularmente sofisticado é o método utilizado para branquear os valores ilícitos. Segundo os autos, os suspeitos empregavam um arsenal de técnicas de ocultação patrimonial:
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Maquininhas de cartão de crédito cadastradas em nome de terceiros — pessoas físicas e jurídicas de fachada, muitas delas sem qualquer atividade econômica real. Essas maquininhas eram usadas para transacionar as vendas, gerando recibos falsos que dificultavam a correlação entre o produto, o vendedor e o comprador.
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Pulverização bancária: os valores recebidos eram fracionados em múltiplas contas-correntes, muitas delas abertas em fintechs e bancos digitais com menor rigor no compliance. O dinheiro era movimentado em pequenas quantias para escapar dos mecanismos de monitoramento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
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Aquisição de bens de alto valor com esses recursos — como imóveis rurais e veículos de luxo — que foram alvos do sequestro judicial.
A PF destaca que o uso de “laranjas” não se limitava às maquininhas: os próprios sócios das lojas investigadas, em alguns casos, eram interpostas pessoas, indicadas formalmente como responsáveis legais, mas sem qualquer ingerência real nos negócios. Isso configura não apenas lavagem de dinheiro (art. 1º da Lei 9.613/98), mas também associação criminosa (art. 288 do CP) e falsidade ideológica (art. 299 do CP).
O cerco financeiro: sequestro de R$ 14,5 milhões em bens
Em paralelo ao cumprimento dos mandados de busca e apreensão, a Justiça Federal de Santa Catarina determinou o sequestro de bens e valores dos investigados no montante superior a R$ 14,5 milhões — medida que inclui:
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Imóveis residenciais e comerciais;
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Veículos de luxo (entre eles um Porsche Cayenne e uma BMW X6);
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Saldos bancários bloqueados;
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Participações societárias em empresas de fachada;
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Criptoativos identificados em carteiras digitais.
A quantia sequestrada supera em 80% o valor estimado da sonegação fiscal, o que indica que a PF está mirando não apenas o dinheiro do crime, mas também todo o enriquecimento ilícito acumulado pelo grupo nos últimos anos. O bloqueio tem caráter cautelar e visa assegurar o pagamento de eventuais multas, indenizações e a reparação do dano ao erário.
A região como palco: por que Lages e São José do Cerrito?
A escolha das duas cidades não é aleatória. O Oeste catarinense, tradicional polo madeireiro e agropecuário, tem vivido nos últimos anos uma expansão do comércio eletrônico e da logística regional, impulsionada pela proximidade com os portos de Itajaí e Navegantes. Essa infraestrutura, aliada a uma malha rodoviária que conecta a região ao Centro-Oeste e ao Sul do país, tornou a área um corredor atrativo para a circulação de mercadorias — lícitas e ilícitas.
Além disso, a presença de fronteiras secas com a Argentina e o Uruguai a poucos quilômetros dali facilita a entrada de produtos importados sem controle aduaneiro. A PF suspeita que parte do estoque irregular tenha origem em free shops uruguaios e em revendas paraguaias, caracterizando o crime de descaminho — que, diferentemente do contrabando, envolve mercadorias lícitas, mas ingressadas no país sem o pagamento dos tributos devidos.
Consequências e desdobramentos
Com a operação, os investigados podem responder pelos crimes de:
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Descaminho (art. 334 do CP): pena de 1 a 4 anos de reclusão, majorada se o valor dos tributos sonegados ultrapassar determinado montante;
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Lavagem de dinheiro (art. 1º da Lei 9.613/98): pena de 3 a 10 anos de reclusão, além de multa;
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Sonegação fiscal (art. 1º da Lei 8.137/90): pena de 2 a 5 anos de reclusão;
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Associação criminosa (art. 288 do CP): pena de 1 a 3 anos de reclusão.
As investigações continuam em duas frentes: a financeira, com a análise aprofundada dos extratos bancários e das movimentações em criptoativos, e a logística, com o rastreamento da origem das mercadorias e dos canais de entrada no país. A PF já sinalizou que novos mandados podem ser expedidos nas próximas semanas, atingindo eventuais parceiros comerciais e fornecedores internacionais.
Um alerta para o varejo e para a fiscalização
A Operação Estoque Zero é mais do que uma ação policial — é um recado ao setor varejista catarinense e brasileiro: a informalidade fiscal, por mais disseminada que pareça, não passa incólume. Com o avanço da Receita Federal no uso de inteligência artificial e cruzamento de dados (como o Sistema Público de Escrituração Digital — SPED), a brecha para a sonegação se reduz dia após dia.
O caso também expõe a fragilidade do sistema de compliance de instituições financeiras diante da pulverização de valores, e a necessidade de aprimorar os mecanismos de identificação de beneficiários finais nas transações de alto valor.
Enquanto isso, na região serrana de Santa Catarina, a sensação entre os comerciantes legalizados é de alívio — e de indignação. “Esses esquemas prejudicam quem paga imposto e gera emprego de verdade”, comentou um lojista de Lages, sob anonimato. A PF, por sua vez, garante que a operação não termina aqui: “Estamos apenas no começo”, afirmou um dos delegados à imprensa local.
Com informações de NoPontoSC, O Município, Oeste Mais, SCC10, Jornal Razão, ND+, Oeste SC, Economia SC e ClicRDC.