A eliminação precoce da Seleção Brasileira de futebol masculino na Copa do Mundo de 2026 e as recorrentes denúncias de ataques e invasões a terreiros de umbanda são dois eventos que, à primeira vista, parecem ocupar universos distintos e incomunicáveis. Contudo, ao lançar um olhar mais atento sobre a história e a cultura brasileira, é possível encontrar uma conexão profunda e simbólica entre esses dois fenômenos, ambos sintomas de um mesmo mal-estar civilizatório.
A Alma Brasileira em Duas Faces
A formação da cultura brasileira é um processo complexo, marcado por sincretismos, resistências e reinvenções. O futebol, introduzido no Brasil por descendentes de europeus no final do século XIX, foi rapidamente apropriado e reencantado pelas camadas populares, transformando-se em muito mais que um esporte. Ele se tornou uma linguagem, uma expressão de identidade e, para muitos, um verdadeiro símbolo de pertencimento nacional. Figuras como Mané Garrincha são a encarnação máxima desse processo. Descendente de indígenas da etnia Fulni-ô, Garrincha representou, com sua ginga e seus dribles improvisados, uma subversão à lógica técnico-tática europeia. Seu futebol era uma “prática de linguagem oriunda de uma notória contracultura”, um estilo “brincante, singular e exagerado” que o consagrou como um herói nacional, uma síntese do “ser brasileiro”.
Em paralelo, as umbandas floresceram como outra face dessa mesma alma criativa. Fruto do amálgama de ritos de ancestralidade bantos, calundus, pajelanças, encantarias, cristianismo popular e espiritismo kardecista, a umbanda é uma religião genuinamente brasileira que reinterpreta a própria história cultural do país. Vovó Maria Conga, uma preta velha das nossas umbandas, simboliza essa resistência. Vinda de Angola, viveu em um quilombo em Magé, no Rio de Janeiro, e após a morte, sua presença se perpetuou em novos quilombos: os terreiros de macumba espalhados por todo o Brasil. Nesses espaços, a memória e a cura de um povo são celebradas ao som dos tambores, que chamam Vovó para curar e aconselhar seus filhos e filhas.
O Eco de um Desencanto
Tanto Garrincha quanto Vovó Maria Conga podem ser vistos como heróis civilizadores do Brasil, representantes da capacidade do povo brasileiro de criar e reinventar, de encontrar brechas e espaços para se expressar e viver. O futebol de Garrincha, com seu princípio de brincar no vazio, é uma metáfora para a própria vida, uma maneira de driblar os desafios e obstáculos impostos por uma estrutura social excludente.
A campanha da Seleção na Copa de 2026, no entanto, parece ter se desconectado dessa essência. Com uma atuação descrita como “pífia e vergonhosa” e uma eliminação nas oitavas de final para a Noruega, o time gerou uma sensação de fragilidade e falta de identidade. A equipe, que deveria ser um símbolo de união, mostrou-se “sem competitividade, sem organização e sem criatividade”, levantando questões pertinentes para o Brasil do século XXI: Ainda é possível se pensar em um “povo brasileiro” ou essa categoria já se perdeu no tempo? Há algum resquício do modo brasileiro de jogar como uma síntese original e alternativa ao futebol europeu nos dias de hoje? A seleção ainda representa, no território mítico da produção de identidades, o símbolo de pertencimento que representou um dia?
Essas questões encontram um eco sombrio nos repetidos ataques a terreiros de umbanda. Em junho de 2026, um terreiro na Zona Norte do Rio de Janeiro foi invadido oito vezes em apenas duas semanas. Criminosos arrombaram portas, furtaram fiação elétrica e objetos de metal, como crucifixos e sinos, para revender em ferros-velhos, causando prejuízos de cerca de R$ 26 mil. Em Belo Horizonte, um pastor foi preso em flagrante após invadir um terreiro e ofender os fiéis, afirmando que estavam “com o demônio no corpo”. Esses atos de violência, motivados por intolerância religiosa e racismo, são um ataque direto à liberdade de crença e à própria diversidade cultural que define o Brasil.
Conclusão: O Grito sem Gol e o Rufar dos Tambores
A eliminação da Seleção e os ataques aos terreiros são sintomas de um desencanto profundo com um país que parece ter perdido o rumo. São dois lados da mesma moeda: a crise de identidade de uma nação que um dia se viu representada na ginga de um Garrincha e na fé de uma Vovó Maria Conga, mas que hoje se vê diante de um esfacelamento de suas comunidades e de seus símbolos mais caros.
Essas questões ressoam sem tambores e gritam sem gols. Elas falam sobre a viabilidade do país como projeto de nação ou sobre sua transformação em uma comunidade inviável e fragmentada. Mais do que sobre a Seleção ou sobre o ataque cotidiano a algum terreiro, essas questões nos convidam a refletir sobre o que nos resta como povo e sobre qual legado queremos deixar para as futuras gerações.
Com informações de ICL Notícias e outras fontes.