A entrega de um viaduto na BR-280, em Jaraguá do Sul, na última quarta-feira (1º), deveria ser um momento de celebração por mais um avanço na infraestrutura catarinense. Tornou-se, no entanto, mais um palco para o governador Jorginho Mello (PL) expressar sua indignação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em um discurso contundente, o governador afirmou que Lula precisa “lavar a boca para vir falar de Santa Catarina” , em referência às declarações do presidente durante visita recente ao estado.

A fala, aplaudida pelo público presente, reflete o clima de beligerância que tomou conta da relação entre o Palácio Barriga Verde e o Planalto. Mas o que Jorginho Mello omitiu em seu discurso — e o que os aplausos não apagam — é o padrão recorrente de ausências que o governador tem cultivado sempre que o presidente da República visita Santa Catarina para anunciar investimentos.


O Padrão que se Repete: Ausências Sem Justificativa

Esta não foi a primeira vez que Jorginho Mello se fez de desentendido. O governador tem um histórico de boicote aos eventos do governo federal em solo catarinense:

  • Março de 2026: Jorginho não acompanhou a visita de Lula ao estado para assinar o contrato de financiamento de um estaleiro em Itajaí.

  • 26 de junho de 2026: Durante a visita de Lula às obras de embarcações da Petrobras, também em Itajaí, o governador novamente não compareceu. O governo estadual escalou o secretário de Segurança Pública para representá-lo.

  • 2024: Na primeira visita de Lula ao estado em 20 meses, a ausência também se repetiu.

Em todas essas ocasiões, não houve justificativa plausível — apenas o silêncio de um governador que prefere se ausentar a dialogar, mesmo quando os anúncios envolvem bilhões de reais em investimentos para a população catarinense.


A Reação de Lula: “Qual a Qualidade da Massa Encefálica?”

As ausências reiteradas não passaram despercebidas. Durante o evento em Itajaí, em 26 de junho, Lula foi direto:

“Vocês pensam que eu fico satisfeito de vir aqui com a empresa mais importante do Brasil, com o ministro dos Transportes, com o ministro de Portos e Aeroportos, e o governador, que eu não sei nem o nome dele, nunca teve coragem de comparecer em nenhum evento com o governo federal” .

O presidente também questionou a recusa de Mello em firmar parcerias com a União: “Qual é o tamanho da cabeça desse cidadão? Qual é a qualidade da massa encefálica que ele tem na cabeça? É de se pesquisar, porque um ser humano não pode ser pequeno a ponto de não privilegiar os interesses do povo de Santa Catarina” .


A Resposta de Mello: Críticas, Mas Sem Autocrítica

Em Jaraguá do Sul, Jorginho Mello respondeu à altura — mas sem mencionar suas próprias ausências. Limitou-se a cobrar respeito e a acusar o governo federal de abandonar o estado, afirmando que Santa Catarina precisou assumir intervenções em rodovias federais “já que o pessoal de Brasília não nos ajuda” .

O governador também criticou a fala de Lula sobre a “hegemonia branca” , que comparou aos ideais de Hitler. A declaração, que fez referência à lei estadual que tentou extinguir cotas raciais nas universidades, foi interpretada por Jorginho como uma ofensa coletiva aos catarinenses.

O que o governador não mencionou, no entanto, é que o episódio que gerou a crise — a visita de Lula a Itajaí — só aconteceu porque o governo federal está investindo no estado. E que suas ausências reiteradas não são um gesto de dignidade, mas de desprezo pelo diálogo institucional e pelos interesses da população que ele deveria representar.


A Contradição Exposta

A fala de Jorginho Mello em Jaraguá do Sul expõe uma contradição que a política catarinense insiste em ignorar: o governador que cobra respeito é o mesmo que repetidamente desrespeita a institucionalidade ao se recusar a participar de eventos com o presidente da República.

Ele acusa Brasília de abandono, mas boicota os anúncios de investimentos federais. Cobra respeito, mas trata a visita do presidente como se fosse uma afronta. Fala em defesa dos catarinenses, mas os priva da oportunidade de ver seus governantes dialogando em busca de soluções para o estado.


O Custo da Polarização

A relação entre o governo federal e o governo de Santa Catarina chegou a um ponto de ruptura. De um lado, Lula anuncia investimentos que, segundo ele, o estado “não recebia há muito tempo” . Do outro, Jorginho Mello se recusa a participar dos eventos, contesta os números e acusa o presidente de ofender o povo catarinense — tudo isso sem nunca explicar por que não comparece às agendas que poderiam trazer mais recursos e desenvolvimento para o estado.

O que fica claro é que, independentemente de quem tem razão nos números ou nas palavras, a cooperação federativa foi sacrificada no altar da polarização política. E quem perde com isso é a população catarinense, que fica refém de uma guerra de narrativas enquanto as obras e os investimentos — reais ou prometidos — aguardam um entendimento que parece cada vez mais distante.