A decisão do governo dos Estados Unidos, anunciada nesta quarta-feira (1º), de aplicar sanções contra dois brasileiros e quatro empresas por supostos vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC) marca um novo capítulo na guerra contra o crime organizado transnacional — e expõe as profundas fissuras entre a abordagem jurídica tradicional e a nova estratégia de Washington.

Pouco mais de um mês após o presidente Donald Trump classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, o Departamento do Tesouro americano, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), desferiu o primeiro golpe contra a estrutura financeira da facção paulista. A medida, que atinge pessoas físicas e jurídicas, é a primeira rodada de sanções desde a nova designação e representa uma escalada significativa na pressão dos EUA sobre organizações criminosas brasileiras.


A acusação: uma rede de lavagem de US$ 30 milhões

O alvo principal das sanções é Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado pelas autoridades americanas como o “elo central” entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais de drogas. Segundo o comunicado do Tesouro, Shimada liderava o núcleo paulista de uma rede que teria lavado **mais de US30milho~es∗∗(cercadeR 156 milhões) em recursos ilícitos gerados em diversas cidades dos Estados Unidos.

O esquema utilizava criptomoedas para transferir os valores de volta ao Brasil em nome da facção. A rede operava principalmente em dois polos: um na Flórida e outro em São Paulo. Em janeiro de 2026, o FBI já havia prendido seis integrantes do grupo baseado na Flórida, denunciados por lavagem de dinheiro na Justiça federal do Distrito Sul da Flórida.

Também foi sancionada Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, descrita como parente próxima, ex-secretária e associada de Shimada. Segundo a acusação, ela atuava como intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro e prestava apoio logístico às operações de lavagem atribuídas ao grupo.


O perfil dos sancionados e a conexão com o Corinthians

A trajetória de Shimada, segundo reportagem da BBC News Brasil, é marcada por uma “ascensão social acentuada” — de um Palio a um Porsche elétrico. O empresário já era conhecido das autoridades brasileiras. Em janeiro de 2025, chegou a cumprir prisão domiciliar no Brasil, suspeito de usar uma de suas empresas para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol em um esquema de fraude publicitária.

Embora o comunicado do Tesouro não cite nominalmente o Corinthians, a empresa de Shimada, a Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda. , aparece nas investigações do escândalo da “Vai de Bet” — a casa de apostas que patrocinou o clube. Segundo denúncia do Ministério Público paulista, a Victory Trading foi a última empresa pela qual passaram recursos antes do repasse à UJ Football, também investigada no caso. As investigações levaram à denúncia contra Augusto Melo, ex-presidente do Corinthians, expulso do quadro associativo do clube.

O promotor do Ministério Público de São Paulo Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há décadas, afirmou à BBC News Brasil que desconhece a suposta relação dos sancionados com a facção“Desconheço que esse casal ou essas empresas tenham envolvimento com o PCC, mas não tenho conhecimento das investigações que o FBI e o DOJ [Departamento de Justiça dos EUA] fizeram a partir de alvos ligados ao PCC em Miami.”


As empresas bloqueadas e as consequências das sanções

Além das pessoas físicas, as sanções atingem quatro empresas supostamente ligadas a Shimada:

  • Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda. (São Paulo)

  • Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. (São Paulo)

  • Wave Construções Inteligentes Ltda. (São Paulo)

  • Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda. (Portugal, sediada perto de Lisboa)

As duas primeiras atuam no setor financeiro; a Pixwave é uma construtora; e a empresa portuguesa trabalha com transporte e armazenagem.

Como resultado das sanções, todos os bens e interesses dos alvos sob jurisdição dos EUA ficam bloqueados. Cidadãos e empresas americanas ficam proibidos de realizar qualquer tipo de transação com eles. Além disso, instituições financeiras e outras pessoas que se envolverem em certas transações ou atividades com os designados podem estar sujeitas a sanções secundárias.


A reação do governo brasileiro e o contexto diplomático

Nos bastidores de Brasília, a falta de um aviso diplomático prévio gerou reação. O governo brasileiro foi pego de surpresa com o anúncio. Uma fonte do governo resumiu a situação afirmando que “esse governo costuma anunciar por redes sociais”.

A decisão americana foi adotada com base em duas ordens executivas: a 14059, que tem como objetivo combater a produção e proliferação de drogas; e a 13224, que autoriza sanções contra pessoas ou organizações consideradas terroristas e seus apoiadores.

O subsecretário do Tesouro para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, afirmou que a medida busca barrar o avanço do PCC dentro dos Estados Unidos e impedir que o crime organizado do Hemisfério Ocidental se instale em solo americano. O governo Trump também afirmou que a facção paulista “agora é a maior organização criminosa transnacional do hemisfério ocidental” .


O debate jurídico: crime organizado ou terrorismo?

A decisão de enquadrar o PCC como organização terrorista e aplicar sanções com base nessa designação reacendeu um debate entre especialistas. Peter Neumann, um dos principais especialistas do mundo em terrorismo e violência política, professor do King’s College de Londres, afirmou à BBC News Brasil que a discussão sobre PCC e Comando Vermelho expõe um desafio crescente para governos em todo o mundo: como lidar com organizações que movimentam bilhões de dólares, operam em vários países, corrompem autoridades e desafiam o Estado, mas que continuam motivadas principalmente por interesses econômicos e não por objetivos ideológicos.

“Precisamos inventar um novo termo para isso” , afirmou Neumann“Eu não os descreveria como grupos terroristas. Eles ainda são grupos criminosos, mas se tornaram muito poderosos e representam uma ameaça à estabilidade do Estado.”


Conclusão: um novo capítulo na guerra ao crime

As sanções anunciadas pelos EUA representam um marco na cooperação internacional contra o crime organizado — e também uma fonte de tensão diplomática. Ao classificar o PCC como organização terrorista e aplicar sanções contra brasileiros e empresas, Washington enviou um recado claro: a facção paulista é agora uma prioridade na agenda de segurança dos Estados Unidos.

Para o Brasil, o episódio levanta questões delicadas. O governo foi pego de surpresa. As acusações envolvem um cidadão brasileiro que já respondia a processos no país, mas cuja suposta ligação com o PCC, segundo um dos mais experientes promotores do estado de São Paulo, não era conhecida das autoridades brasileiras.

O desfecho dessa história ainda está em aberto. Mas uma coisa é certa: a decisão de Washington de usar o arsenal antiterrorismo para combater o crime organizado abriu uma nova fronteira — e o Brasil, como país de origem da facção, está no centro desse novo tabuleiro geopolítico.