A rodovia ViaMar — prometida como a maior obra rodoviária da história de Santa Catarina— virou o centro do tabuleiro eleitoral no estado. Mas a disputa não é sobre como construir a estrada. É sobre quem vai colher os frutos políticos de uma obra que, na prática, ainda não saiu do papel.
Com o edital do primeiro trecho lançado em 24 de junho, o governador Jorginho Mello (PL) tenta transformar a ViaMar em seu principal trunfo de campanha. Já o pré-candidato João Rodrigues (PSD) insiste em um ponto técnico incômodo: não há projeto executivo, apenas um anteprojeto. O embate expõe uma disputa reativa — em que ambos correm para se apropriar de um empreendimento ainda em fase embrionária — e revela o que a política catarinense tem de pior: a instrumentalização de obras públicas como moeda de troca eleitoral, enquanto a população espera por soluções concretas para os gargalos logísticos do estado.
A Obra: Gigante no Papel, Incerta na Prática
A ViaMar é planejada para ter 145 quilômetros, conectando Joinville ao Contorno Viário da Grande Florianópolis. Será uma via expressa com três faixas em cada sentido, velocidade máxima de 120 km/h e investimento total estimado em mais de R$ 7 bilhões.
O trecho licitado em primeiro lugar — o lote 4, entre Itajaí e Luiz Alves — tem 25,7 quilômetros e orçamento de R$ 2,2 bilhões. A obra promete desafogar a BR-101, escoar a produção dos portos e reduzir o tempo de viagem entre o Norte e a Grande Florianópolis.
O problema é que o edital publicado não é para execução da obra, mas para contratação de uma empresa que fará o projeto básico, o projeto executivo e, só depois, a execução. Em outras palavras: o governo está licitando o projeto, não a estrada.
O Jogo Político: Uma Obra em Disputa, Um Projeto que Não Existe
A briga começou quando João Rodrigues lançou um desafio ousado: se o governo apresentasse o projeto da ViaMar, ele retiraria sua pré-candidatura. Jorginho Mello respondeu no evento Summit Cidades, exibindo uma cópia dos documentos e chamando Rodrigues de “falastrão”.
A tréplica veio rápida e cirúrgica. Rodrigues afirmou que o material entregue não é um projeto executivo, mas um anteprojeto — uma diferença técnica crucial. O anteprojeto é uma concepção inicial da obra, enquanto o projeto executivo reúne licenciamento ambiental, detalhamento de desapropriações, estudo de impacto ambiental e custos reais.
“Anteprojeto e projeto têm uma diferença gigantesca” , afirmou Rodrigues, ao lado dos pré-candidatos ao Senado Antídio Lunelli (MDB) e Esperidião Amin (PP).
O ex-prefeito de Chapecó também criticou o cronograma: o governo teria tido 600 dias para lançar a obra, mas só agora, às vésperas das eleições, apresenta um anteprojeto que, segundo ele, “já estava contratado desde o início do mandato” . Para Rodrigues, a promessa de início rápido das obras é irreal e meramente eleitoreira.
Governo Reage e Escancara a Fragilidade do Projeto
Em nota oficial, o Governo do Estado classificou a ViaMar como uma resposta à “ausência de iniciativas do Governo Federal voltadas à infraestrutura de transportes catarinense” . A Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade (SIE) afirmou ter optado pela modalidade de contratação integrada, prevista na nova Lei de Licitações, para viabilizar as melhores soluções técnicas.
A justificativa, no entanto, não esconde um fato: a obra ainda depende de projetos a serem feitos, licenças ambientais a serem obtidas e desapropriações a serem realizadas. O próprio edital publicado no Diário Oficial prevê a contratação de empresa para “elaboração de projeto básico, projeto executivo de engenharia e execução de obras” .
Rodrigues foi enfático: “Não tem como fazer obra em menos de seis meses. Um ano, talvez. Mas o senhor disse que será em até 60 dias. É humanamente impossível a empresa vencedora fazer o projeto, as licenças ambientais e as desapropriações” .
A Inércia e a Instrumentalização Eleitoral
O embate expõe uma verdade incômoda: a ViaMar, apesar de todo o barulho político, é uma obra que o governo teve anos para estruturar e só agora, a poucos meses das eleições, ganhou um edital. O anteprojeto, segundo Rodrigues, já existia desde o início do mandato. Se é verdade, por que o governo esperou até junho de 2026 para lançar a licitação?
A resposta parece estar menos na engenharia e mais no calendário eleitoral. A ViaMar é usada como ferramenta de campanha por Jorginho Mello, que busca capitalizar politicamente sobre uma obra que ainda não saiu do papel. João Rodrigues, por sua vez, tenta desmontar essa narrativa apontando a fragilidade técnica do projeto — e, ao fazer isso, espera mostrar que o governo promete o que não pode cumprir.
O que se vê, no fim das contas, é uma disputa reativa entre dois candidatos de direita que lutam pelo capital político de uma obra que, na prática, está em fase de projeto por inércia do próprio governo. Nenhum dos dois apresenta um plano concreto para viabilizar a estrada; ambos se limitam a trocar acusações sobre quem tem ou não o documento certo.
Conclusão: A ViaMar como Espelho da Política Catarinense
A disputa em torno da ViaMar é um retrato do que há de pior na política catarinense: gestões que acumulam atrasos e, quando o calendário eleitoral aperta, correm para lançar editais que ainda não têm lastro técnico; oposições que se limitam a apontar os erros do adversário, sem oferecer alternativas viáveis; e uma população que fica refém de promessas que se arrastam por anos, enquanto o trânsito na BR-101 continua sufocando o desenvolvimento do estado.
O governador Jorginho Mello trata a ViaMar como sua principal vitrine. Mas a verdade é que, até hoje, o que existe é um edital para contratar quem vai fazer o projeto — não a obra em si. João Rodrigues, por sua vez, tem razão ao apontar a fragilidade técnica do processo. Mas sua crítica não se traduz em um compromisso claro de como, se eleito, faria diferente.
Enquanto os dois candidatos de direita travam uma guerra de narrativas, a ViaMar segue no papel. O desenvolvimento de Santa Catarina — que depende de infraestrutura de verdade, não de promessas de campanha — fica mais uma vez refém de uma política que trata obras públicas como moeda de troca eleitoral, e não como compromisso com a população.