A peça central dessa engrenagem é André do Prado. Em seu discurso de lançamento, ele foi direto ao ponto, afirmando que a vaga ao Senado “deveria ser de Eduardo Bolsonaro”. “A vaga era dele, era ele que estaria disputando essa vaga no Senado. Vou honrar todas as pautas da direita com o Eduardo”, declarou.

A escolha de André do Prado não foi aleatória. Segundo o próprio Eduardo, a decisão se deu diante do “capital político” de seu aliado, que possui 32 anos de vida pública e capilaridade junto às prefeituras. A avaliação é que Prado tem “musculatura política” para agregar à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e é visto como um nome com “forte potencial para disputar o governo de SP futuramente”. A escolha também contou com a anuência do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do governador Tarcísio de Freitas, que endossou o nome como alguém que “conseguiria mobilizar votos da direita e do centro”.

No entanto, a chapa carrega uma ambiguidade que alimenta as suspeitas nos bastidores. Embora André do Prado tenha afirmado que, se eleito, “vai ficar no Senado” e que essa é a missão para a qual a população votará, ele também manteve Eduardo como primeiro suplente. Para aliados, essa é a “porta de entrada” para uma eventual manobra futura.


O Contexto de Pressão: Inelegibilidade e o “Exílio” nos EUA

A estratégia da família Bolsonaro é uma resposta direta a um cenário de cerco jurídico e político. Eduardo Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a quatro anos e dois meses de prisão em regime inicialmente semiaberto pelo crime de coação no curso do processo, por sua atuação nos Estados Unidos para intimidar o Judiciário brasileiro.

Com a condenação, ele se tornou inelegível por oito anos. A professora Vânia Aieta, presidente da Comissão de Direito Eleitoral do IAB, explica que a estratégia do PL de mantê-lo como suplente tem “caráter sobretudo político”, sendo um “factoide de vitimização para angariar votos”. Se a chapa insistir em mantê-lo, ela pode ser cassada.

Além disso, Eduardo está nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, em uma situação que ele mesmo descreve como um “exílio”. Seu retorno ao jogo político, mesmo que como suplente e à distância, é uma forma de se manter ativo e relevante, enquanto sua base eleitoral é mobilizada em seu nome.


A Estratégia do Clã: Blindagem, Proteção Diplomática e Reorganização

A movimentação em torno de André do Prado é a ponta de um iceberg. Nos bastidores, a avaliação é de que a operação visa criar condições políticas para que Eduardo volte ao jogo com musculatura institucional reforçada e, principalmente, cercado por algum tipo de proteção diplomática que amplie sua margem de atuação internacional.

Esse movimento se insere em uma estratégia mais ampla da família Bolsonaro para reorganizar o campo bolsonarista em meio ao avanço de investigações e à pressão crescente sobre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. A candidatura de André do Prado, nesse contexto, é uma peça dentro de um plano desenhado para:

  1. Manter Eduardo no jogo: Mesmo inelegível, sua presença como suplente mantém seu nome em evidência e sua base mobilizada.

  2. Fortalecer a influência no Congresso: A eleição de André do Prado ampliaria a bancada aliada e criaria uma rede de proteção institucional para o clã.

  3. Testar a capacidade de mobilização: A operação serve como um teste para a capacidade da família de mobilizar apoio e recursos em um cenário de crescente pressão política e judicial.

  4. Criar um “plano B”: A suplência de Eduardo é uma aposta em futuros recursos jurídicos para reverter sua inelegibilidade. Se a decisão for revertida, ele estará posicionado para assumir.


O Peso do Eleitorado e a Reação de Tarcísio

A estratégia, no entanto, não é isenta de riscos. O governador Tarcísio de Freitas, que participou do lançamento da pré-candidatura de André do Prado, classificou a condenação de Eduardo como “injusta”. Sua presença no evento, ao lado de Flávio Bolsonaro, é um sinal do alinhamento do bolsonarismo paulista.

No entanto, a chapa enfrenta o desafio de equilibrar a lealdade ao clã Bolsonaro com a necessidade de atrair o eleitorado de centro e de direita moderada. A chapa ao Senado em São Paulo também conta com Guilherme Derrite (PP) como segundo candidato, numa tentativa de ampliar a base de apoio.


Implicações Políticas: O Futuro do Bolsonarismo em Jogo

A movimentação em torno de André do Prado não é um simples movimento partidário. Ela revela as entranhas da estratégia da família Bolsonaro para sobreviver e se reorganizar em um cenário adverso.

O resultado dessa aposta dirá muito sobre o futuro do bolsonarismo. Se bem-sucedida, a operação recolocará Eduardo Bolsonaro como um ator central, mesmo que à distância, e demonstrará a resiliência do clã. Se fracassar, poderá expor suas fragilidades e acelerar o esfacelamento de sua base de apoio.

Uma coisa é certa: a movimentação em torno de André do Prado é uma ofensiva silenciosa que visa recolocar Eduardo Bolsonaro no centro do tabuleiro, utilizando a política como um escudo contra o cerco jurídico que se fecha sobre ele e sua família.